Onde o pagode não é sucesso

Posted on 08/06/2009 por

4


Terceira idade do bairro de Canabrava condena o ritmo baiano

por Raiara Azevedo | foto: Raiara Azevedo

Quem afirma não existir conflito entre as pessoas da comunidade de Canabrava quando o assunto é musica, com certeza não sabe do que esta falando. Assim como em outras áreas da periferia de Salvador, a exemplo de Jardim Esperança, Daniel Gomes, etc., os moradores do bairro de Canabrava convivem de forma intensa com a musicalidade popular de bandas com títulos incomuns como Psirico, Fantasmão e Art do Arrocha.

Entretanto, a questão não é tão simples como parece. Nem todo mundo adota os ritmos ousados das letras das músicas de pagode, nem a melodia do “novo brega”, o famoso arrocha. Em evidência no universo jovem e no auge do seu sucesso, o pagode é mais reprovado que o arrocha nas pesquisas. Como é de se imaginar a não-aceitação, as críticas e o desprezo ao ritmo existe principalmente por parte de pessoas com mais de 40 anos.

Mães e avós dizem não se sentir “bem” ao ouvir e ver as danças sugeridas pelas musicas de pagode, por serem muito pornográficas e sugestivas. “Na minha casa esse tipo de música não entra, só quando eu estiver morta”, diz Margarida Maria da Silva, 63 anos, moradora do bairro de Canabrava”. A senhora declara ser fã da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano e do cantor Leonardo e ao tratar de arrocha, de artistas como Reginaldo Rossi, Valdick Soriano e banda Asas Livres ela afirma que “antigamente era melhor, mas a de hoje também é boa” e fala com carinho do cantor Pablo do grupo Arrocha.

A mestre em Teorias e crítica da literatura e da cultura, Sayonara Amaral afirma que é comum a não-aceitação, pois o conflito entre gerações sempre existiu. “Isso acontece desde as revoltas juvenis dos anos 1960, as gerações anteriores já se pronunciavam com a seguinte máxima “no meu tempo não era assim”, ou “no meu tempo é que se faziam músicas de verdade”, diz a professora. Ela justifica que a postura discriminatória encontra-se na necessidade de mostrar “autoridade”. “O valor da autoridade parece ser defendido de geração a geração, pois grande parte dos que hoje recusam o gosto musical dos mais jovens, um dia já teve o seu gosto recusado também”, revela.

O fato é que diferente do que alguns cantores afirmam em seus shows, não é todo mundo que se sente representado com letras como Favela da banda Parangolé ou Rala a tcheca no chão da banda Black Style. Ao contrário, algumas pessoas do bairro criticam e alegam que a mulher está sendo menosprezada em muitas músicas. Sônia dos Santos, 43 anos, expõe sua opinião acerca do ritmo: “Tem umas que tem muita ousadia, desmoraliza as mulheres”. Em contrapartida, a moradora conta não resistir à tentação quando está “tomando uma”, na justificativa do ritmo ser muito gostoso. “Se eu tiver tomando uma, eu danço de me acabar”, diz. Em disparada as letras Kuduro, Rala a tcheca no chão e Rala a xana no asfalto foram as mais comentadas e criticadas pelo povo.

Os hits ganham a aversão principalmente de idosos e mães de família como Silvania Marinho, mãe de 2 filhos e grávida de gêmeos. Com empolgação ela narra o cotidiano do bairro de Canabrava e o envolvimento das pessoas com as músicas populares, e deixa claro que a comunidade é contagiada com o pagode e o arrocha sim, e que todo fim de semana é dia de ouvir, mesmo sem gostar porque “em todo canto tem caixa de som ligada nas alturas”, como revela a gestante. Entretanto, conta não simpatizar muito com o pagode, e declara ser fã de cantores de arrocha como Silvano Sales: “é musica de corno, mas é boa, pois diz coisas bonitas pra gente ouvir”.

O pagode e o arrocha viraram sucesso, e isso graças a comunidades pobres, pois a maioria dos artistas começou nos guetos, ensaiando em garagens ou em casa com instrumentos arranjados, como é o caso do vocalista Eddy da banda Fantasmão, que contou a história em entrevista para o site http://www.bahianoticias.com. br.

A estudante Tauane Bahia, 18 anos, diz compreender a intolerância de sua avó com as musicas, mas afirma não abandonar “de jeito nenhum” suas paixões, a banda Fantasmão e Black Style. A jovem diz não faltar uma festa do bairro, pois lá o pagode é garantido. “Onde vejo a lata bater, eu corro”. Já o percussionista Leonardo Oliveira, 18 anos, diz passar maus bocados com a família para seguir sua banda de pagode, “mesmo minha vó não gostando eu vou. A gente briga todo dia, mas não adianta, por que ela tem um gosto e eu tenho outro”.

Há quem pense que os jovens pagodeiros são alienados e influenciáveis, mas a jovem universitária do bairro de Daniel Gomes, Larissa Mendes, 22 anos, afirma que isso não pode se tornar uma verdade absoluta. “Nós (pagodeiros) sabemos que algumas letras de pagode são baixo-astral, mas é a realidade da gente, do nosso povo, a gente não pode esconder de ninguém a nossa linguagem, o nosso pensamento. Outra pagodeira, a jovem Tatiane Moutinho, 21 anos, complementa o pensamento da colega alfinetando “Cada cultura tem seus defeitos, a nossa pode ser esse, o de falar palavrão, exagerar na baixaria, mas e as outras baixarias que fazem por ai fora,  porque ninguém vê?”.

Ao tratar de terceira idade, a oposição ferrenha às letras das músicas é fato. A “antiga” geração da comunidade de Canabrava até tolera e simpatiza com o arrocha, mas condena ferozmente o pagode, que segundo os entrevistados, é gerado da promiscuidade e da ousadia. Portanto, nas comunidades da periferia não há oposição certa, porque o ritmo já se instalou no dia-a-dia das pessoas, principalmente dos mais jovens, e estes o defendem com unhas e dentes.

Anúncios
Posted in: CULTURA