Cultura em Canabrava é o Bicho!

Posted on 08/06/2009 por

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por Poliana Ribeiro

Para muitos, o sábado é dia de trabalho na comunidade de Canabrava. Para outros, é dia de festa, barulho e ensaio. Situado numa rua com nome de um dos maiores nomes da cultura baiana, Rua Gilberto Gil, funciona o espaço do Projeto Cultural Bicho da Cana, que já recebeu cerca de 300 jovens ao longo de sua existência. O Projeto consiste numa espécie de centro cultural misto, que aproveita das artes da Bahia para ensinar a crianças e adolescentes interessados. Criado há seis anos por lideranças da comunidade, Carlinhos Capoeirista, Kaum do Samba, Neném Calabar e Dona Nilzão, o Bicho da Cana apresenta-se ao povo da periferia como uma oportunidade de vida nova através da arte.

Segundo o mestre Neném Calabar, o projeto surge em 2003 como uma opção de lazer após a escola. Tinha como objetivo primordial resgatar jovens e crianças da comunidade que se envolviam com o tráfico de drogas e também apresentar uma opção melhor para os que ainda não haviam entrado: “o grupo foi criado para amenizar a carência da comunidade e com o intuito de tirar crianças da rua e educar com a música”, diz o professor de percussão.

Segundo o líder comunitário Neném, o projeto dá certo porque continua sua missão em oferecer as pessoas do bairro uma segunda opção para vida, uma opção até mesmo profissional. Ele conta que muitos já são os que levaram os ensinamentos adquiridos no curso de percussão e capoeira adiante para outros países como Espanha e Portugal, coisa que raramente aconteceria se estivessem ligados ao mundo do crime ou desprovidos de perspectivas de futuro.

O Bicho da Cana funciona todos os sábados a partir de 13:00hs, onde são oferecidas aulas de dança, capoeira, percussão e samba de roda. O ingresso no projeto se dá através de uma inscrição simples com preenchimento de ficha e mantém-se com a assiduidade nas aulas do curso escolhido. Ser morador de Canabrava é um dos critérios mais preciosos do projeto.

Um dos maiores problemas enfrentados é a falta de recursos financeiros para se sustentar. Segundo os líderes do projeto, o Bicho da Cana não recebe nenhum tipo de auxílio do governo, nem de outras organizações, o que é, segundo eles, uma amostra clara do real descaso dos governantes para com o povo de Canabrava e do preconceito com as comunidades periféricas da cidade de Salvador.

Mesmo com dificuldades, o Bicho resiste vivo e se mantém dos shows da banda Chico da Cana, grupo fomentado no projeto e iniciado com alunos que hoje sustentam suas famílias com o dinheiro da banda e respondem como profissionais da música baiana. Everaldo, um dos fundadores da banda afirma: “Sem esse projeto as crianças de Canabrava não teriam noção alguma de música”, diz. Dona Nilzão, professora de samba de roda, afirma que as dificuldades existem porque muitas pessoas insistem em moldar a imagem de um bairro pobre e sem cultura e não acreditam na potencialidade cultural do projeto: “Canabrava também tem cultura e com os resultados deste projeto vamos estimular a construção do centro de cultura popular do bairro”, afirma.  A senhora conta que há ainda um forte preconceito com relação ao bairro devido a sua origem, vinculada a pobreza extrema e ao cata-lixo.

O Bicho da Cana chegou a ficar parado por um período de alguns meses devido aos problemas enfrentados, mas agora que as atividades foram retomadas, os líderes trabalham para manter ativo o espaço local. Aos trancos e barrancos, e sofrendo as dores de uma comunidade da periferia.

O Bicho da Cana persiste na caminhada, e convida a todos de Canabrava a experimentarem das suas atividades. O resultado de seu trabalho encontra-se estampado na face de quem conhece de perto o Bicho, como é o caso da moradora Maria Angélica: “È melhor ela está no projeto aprendendo música do que está solta na rua, sujeita a drogas e até mesmo prostituição”, fala referindo-se da neta de nove anos, aluna do projeto desde 2007.

Com o apoio de suas famílias e sustentando-se na paixão pela arte, crianças e jovens da periferia vencem as adversidades e trilham seus caminhos, afastando-se cada vez mais da criminalidade promovida e oferecida “gratuitamente” nos becos das ruas das periferias. “Tudo que a gente quer é continuar de pé e que os alunos continuem juntos, trabalhando certo e fazendo isso aqui continuar andando”, afirma o professor e líder Nenem Calabar. O representante mostra-se insatisfeito com as autoridades, entretanto mantém o otimismo: “se alguma entidade governamental desse o valor que a gente merece seria uma boa, mas enquanto isso não acontece, a gente vai se virando como pode”, declara.

As dificuldades existem sim, mas os sonhos também. Sonhos, neste caso, cimentados num solo fétido de aterro sanitário, que sustentado por um trabalho diário e alimentado na paixão pela arte produz frutos grandiosos. Por isso, o Bicho da Cana, merece ter, por competência e trabalho desenvolvido, um reconhecimento digno de aplausos, a despeito do preconceito, do descaso e da falta de oportunidade gerada e ocasionada no nosso democrático país, o Brasil, e em nosso digníssimo Estado, a Bahia.

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