18 anos de ECA: PERFIL – Neném Calabar

Posted on 26/11/2008 por

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Tijolo por tijolo num desenho mágico”


por Verena Campello

Morador do bairro de Canabrava há 32 anos, Derivaldo Matos, 41 anos, mas conhecido como Neném Calabar, desenvolve trabalhos sociais no projeto bicho da cana há exatos seis anos e atua como agente comunitário há quatro. Instruído, com pouca renda e muita vontade de fazer a diferença, Neném dedica hoje sua vida e seu tempo à comunidade de Canabrava. Como ele mesmo diz, “eu passo mais tempo no Bicho da Cana do que em casa, por isso coloquei meu filho para integrar o projeto, e assim poder ficar mais perto dele.”Verena Campello – Qual a importância do Estatuto da criança e do adolescente (ECA) no trabalho que você desenvolve?
Neném Calabar – O estatuto é muito importante no meu trabalho, por que se a gente percebe que tem alguma criança sendo violentada, ou tendo o seu direito de criança perdido, a gente sabe das leis do ECA e recorre ao conselho tutelar. Se não existisse o estatuto o nosso trabalho seria dificultado, por que ele nos ajuda a defender nossas crianças.

VC – Quantos agentes comunitários e postos de saúde existem em Canabrava?
NC – Atualmente existem dois postos de saúde no bairro: a unidade básica do PSF e a outra unidade apelidada de Canabravinha. Quando a gente necessita de um atendimento urgente, que o médico não pode socorrer, a gente recorre à diretora de lá, que da um jeito, e faz o atendimento. Pois os postos ajudam, mas não atendem a demanda. A comunidade conta com 21 agentes comunitários que se dividem nas áreas do bairro.

VC – No que consiste o projeto Bicho da Cana?
NC –
O projeto foi criado em 2002. De inicio era só um grupo de samba de roda, que depois de algum tempo sentiu a necessidade de ensinar aos jovens que freqüentavam os ensaios, algum tipo de instrumento. Desde então, nós passamos a nos reunir e percebemos que muitas crianças não sabiam ler nem escrever e passamos então a dar reforço escolar para eles. Quando percebemos, nós já estávamos com mais de 50 alunos e várias turmas de percussão formadas. Hoje o grupo se apresenta em diversos lugares e já participamos do programa “Central da Periferia”, da Rede Globo e do programa “Bom Demais”, da Record. Atualmente, os lucros que nós obtemos com os ingressos dos shows, que custam R$ 1,00, nós montamos quantas cestas básicas conseguirmos e fazemos a doação pela comunidade. Essa é outra forma que encontramos de ajudar o nosso bairro, além da promoção de palestras e a realização de festas comemorativas para toda a comunidade.

VC – Quem são os parceiros ativos da comunidade de Canabrava e dos agentes comunitários?
NC –
Primeiramente é a Secretaria de Saúde e depois algumas faculdades como a UFBA e a UNEB, mas em especial a Centro Universitário Jorge Amado, que está sempre ajudando a comunidade. Seja pelos estudantes da área de saúde. que fazem atendimento de casa em casa, no bairro ou pela clínica escola, que disponibiliza atendimento aos moradores locais. E também por estudantes de outros cursos que muitas vezes realizam palestras ou atividades que nos integram com a universidade.

VC – Por que você resolveu trabalhar como agente comunitário em Canabrava?
NC –
A idéia veio pela necessidade de ter um emprego e tirar o meu sustento. Depois por saber da importância do trabalho que um agente realiza na comunidade e pelo fato de ajudar todos aqueles que realmente precisam. A essência do meu trabalho hoje é poder, além de ajudar o outro, ter a certeza de que eu estou fazendo o bem e levando o melhor, ou pelo menos tentando levar o melhor para os mais necessitados.

VC – Quantas famílias você atende semanalmente e mensalmente? E qual o tipo de atendimento mais oferecido?
NC – Nós atendemos mensalmente de 150 a 160 pessoas. Durante a semana o atendimento é feito com uma media de 40 a 50 pessoas. O atendimento mais realizado é aquele direcionado aos hipertensos, idosos, diabéticos, crianças até cinco anos, adolescentes e todos aqueles que precisarem de ajuda, por que o agente acaba se tornando um psicólogo, um parceiro, um amigo. O agente é a pessoa que todas confiam e atendem.

VC – o você vê a sua relação com a comunidade de Canabrava? E qual a sua importância hoje para a comunidade?
NC – a minha relação com a comunidade de Canabrava e muito íntima, por que eu vou direto à casa de cada um deles que precisa de serviço médico. Além de ter sido criado na comunidade e conhecer bastante as pessoas que moram lá, é bom saber que eles me respeitam. A minha maior importância na comunidade é de servir como um exemplo de alguém que ajuda e procura fazer o melhor pelas pessoas mais necessitadas que estejam ao meu redor. Assim como todos os outros 20 agentes do bairro fazem.

VC – os problemas pontuais que as crianças de Canabrava têm enfrentado?
NC –
Os principais problemas que as crianças e os jovens da comunidade de Canabrava enfrentam são com relação às drogas, realidade muito presente no bairro. Os meninos dizem que usam drogas por que não têm nada pra fazer, ou por que acham legal. A violência é outro problema, e a desculpa usada pelos jovens é a de que eles não têm em casa e vão para rua roubar. O último ponto é a questão da gravidez, que embora a gente avise que tem preservativo de graça nos postos de saúde, os jovens do bairro não usam.

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