Da África para o Brasil

Posted on 25/09/2008 por

0


por Lízia Sena

Aplicar o ensino da África nas escolas localizadas no entorno da Estrada Velha do Aeroporto é contextualizar a história marcada no cotidiano dos moradores da região.  “É uma temática que tem tudo para dar certo no momento em que eles se sentem contemplados com a história deles”, diz a coordenadora da manhã da Escola Municipal de Canabrava, Fátima Barreto, 40 anos.
Por muito tempo a história do Brasil ensinada nas escolas foi marcada por uma visão Européia. Apesar da história admitir que a população seja formada por diversas etnias, o foco central foi sempre dado aos europeus, excluindo a participação dos afro-descendentes e indígenas. Devido à importância e necessidade deste aprendizado, as organizações do movimento negro reivindicaram o ensino da cultura afro-descendente nas escolas. Esta luta deu origem a lei nº 10.639 que incluiu no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, sendo alterada em 2008 pela lei nº 11.645 com inserção da História Indígena. (Fonte: www.planalto.gov.br)

Romper o padrão, desmitificar mitos e acabar com os estereótipos são metas de muitas escolas. A falta de materiais didáticos e capacitação dos professores nas comunidades do entrono da EVA também têm sido problemas que atrapalham a realização do objetivo. “Não houve capacitação. O que tem é curso de pós-graduação, que você paga mais em conta. Ainda não existe um livro didático. Temos livros infanto-juvenis como “Luana”, mas são poucos. Existe algo chamado de invisibilidade do herói negro. A história é deturpada, colocam características erradas como da Tia Nastácia no Sitio do Pica-Pau Amarelo”, explica o professor da Escola Municipal de Canabrava, Adilton Costa, 56 anos, referindo-se ao fato de Nastácia ser negra e como sempre, empregada doméstica.

De acordo com o Ministério da Educação (MEC), os responsáveis pelas secretarias estaduais de educação  têm trabalhado em prol do fortalecimento da temática, para a produção e distribuição de material didático-pedagógico e formação de profissionais da educação, produzindo em 2004, novos livros, cujo conteúdo diz respeito à Lei nº 10.639. Para a capacitação, A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) também realiza cursos de formação continuada de professores através de cursos presenciais e a distância. (Fonte: www.portal.mec.gov.br)

De acordo com a assessora de imprensa da Secretária de Educação da Bahia (SEC), Neire Matos,
não há distribuição de livros, o que existe é material didático para o professor. O órgão também informa que os educadores receberam orientação na época da aplicação da lei através do próprio Ministério da Educação.

Em todas as escolas, o tema faz parte da disciplina e a fiscalização é feita através da grade do professor para cada turma.

Apesar dos empecilhos, o empenho dos professores e o interesse dos estudantes têm vencido os obstáculos e ampliado o aprendizado. “Eles têm se envolvido bastante, até porque é a realidade deles, 90% das crianças são afro- descendentes. Eles estão gostando saber sobre a cultura, costumes, se empolgam. Vontade eles têm”, diz a professora da Escola Municipal Comunitária de Canabrava, Sueli Viana, 41 anos.

A iniciativa da professora da Escola Municipal Padre Hugo Meregali, localizada em Jaguaripe II, Valtirene Santos, 25, contribuiu para um projeto nomeado “Da África para o Brasil”. Para seu plano de estágio do curso de administração, Valtirene criou o projeto que antes era chamado “As sementes históricas e culturais afro-brasileiras e africanas no ensino fundamental do sistema municipal de salvador” para ensinar a história da África.

Ao aplicar o plano na escola, em 2006, e mostrar aos outros professores, as pessoas aos poucos foram se interessando e se integrando em 2007. “Dividimos em temáticas como fauna, plantas, religião, quilombos, áfrica contemporânea, revolta dos búzios, malês, influencias das línguas africanas no português, mitos afro-brasileiros, dentre outros. Eles aprenderam muito”, afirma Valtirene. O programa é trabalhado através da arte, leituras, pesquisa, músicas, filmes, cálculos de matemática e também oralidade, resgatando a cultura afro-brasileira e sempre contextualizando os temas.

Satisfeita com o novo aprendizado, a estudante do 5º ano da Escola Municipal de Canabrava. J. F, 11 anos, afirma estar gostando muito. “Eu aprendi muitas coisas, sobre a cultura, as raças, que não devemos discriminar e tudo mais”, diz J.F.

Lei nº 9.394- Estabelece as diretrizes e base educacional.
Lei nº 10.639- Inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”.
Lei 11.645-Acrescenta a História Indígena na temática “História e Cultura Afro-Brasileira”.

Fontes:
Escola Municipal Padre Hugo Meregali (Jaguaripe II)
Tel: (71) 3611-7802
Escola Municipal de Canabrava
Tel: (71) 3611-7363
Escola Municipal Comunitária de Canabrava
Tel: (71) 3611-7362

Anúncios
Posted in: CULTURA