Mulheres tudo-de-bom

Posted on 17/09/2008 por

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Bloco de Carnaval Feminista de Canabrava revela luta pela equidade de gêneros
por Juliana Affonso Ferreira

O nome do bloco já diz tudo: Monas Odára, Mulheres Tudo de Bom, em Yorubá, língua africana. É assim que as associadas do bloco de carnaval são: mulheres de fibra que lutam pela equidade dos gêneros, pelo respeito étnico-racial, religioso e sexual, e principalmente pelos direitos das mulheres periféricas.

A banda de samba-de-roda Bicho da Cana lidera o trio elétrico, e o público de aproximadamente 500 mulheres, entre as vestidas com a camisa do bloco, outras fantasiadas de baianas e de orixás femininos do candomblé na terça-feira de carnaval. “Esse ano foi uma grande luta para sermos inseridas no carnaval de Salvador, mas tivemos uma vitória mais do que compensatória, pois nosso desfile foi patrocinado pela Emtursa( Empresa de Turismo S.A.).”, revela entusiamada Laís Paulo, associada do bloco. Graças ao apoio da Emtursa, no carnaval de 2008, o bloco que costumava tocar no circuito de trios independentes do Garcia, se mudou para o percurso Batatinha (Pelourinho).

A história das Monas Odára teve início com Valquíria Fonseca, falecida ex-líder comunitária de São Marcos que comandava o extinto bloco de carnaval As Taludas: “Na época de minha avó as mulheres donas-de-casa saíam pelas ruas com cabos de vassoura nas mãos protestando pelos seus direitos, e também à procura de descontração, já que passavam o dia enfurnadas cuidando do lar”, diz Luanda Fonseca, atual presidente do bloco e neta de Valquíri.

“Mas não era qualquer uma que podia fazer parte de As Taludas não. Para se tornar associada tinha que ser alta, negra e forte. Minha avó queria ser a fundadora de um movimento bonito, do qual as pessoas que passassem na rua se orgulhassem!”, declara Luanda.

Surgimento das Monas Odáras
Seis anos atrás, após a morte de Valquíria, sua filha Vera (mãe de Luanda), se mudou para Canabrava e retomou as atividades por honra à sua mãe, criando um novo bloco: Monas Odára, que abrangesse mais questões sociais como saúde e auto-estima das mulheres que habitavam o bairro periférico.

Mas não é apenas durante o carnaval que as Monas atuam: “Ao longo do ano acontecem encontros semanais com oficinas culturais, de etnia, gênero, estética, emprego e renda, e palestras, as quais são patrocinadas pela Secretaria Cultural e Fundação Gregório de Mattos. O carnaval é apenas uma data para mostrarmos o trabalho que desempenhamos na comunidade”, declara Laís Paulo.

Existem tios, irmãos e familiares, do sexo masculino, das associadas que acreditam nos ideais seguidos pelas mulheres do bloco: equidade de gêneros e por esse motivos, aos poucos, o bloco que sempre representou as mulheres, está permitindo que homens façam parte: “Queremos mais associados no nosso desafio diário, e para não ser tão radical estamos deixando homens entrar no nosso bloco, mas só as mulheres podem participar das atividades e oficinas”, revela a presidente do bloco Monas Odára. No último carnaval 100 homens desfilaram. A estimativa para o próximo ano é de que um número ainda maior de pessoas do sexo masculino se tornem foliões do bloco.

A sede do bloco, fica na Rua dos Nambus 30, em Canabrava, e ao adentrá-lo percebe-se a importância da religiosidade para o grupo; santos, velas e oferendas decoram o lugar para atrair bons fluidos e fazer com que essas mulheres alcancem os objetivos – que não são poucos, nem tampouco relevantes – estipulados.

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Posted in: CULTURA