Jovem transforma o grafite em apoio social

Posted on 17/09/2008 por

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por Felipe Esteves

Morador do fim de linha de Canabrava, Anderson Nascimento de 19 anos, mesmo enfrentando todos os tipos de preconceito e sofrendo abuso da polícia, conseguiu crescer dentro de sua profissão. Podemos chamá-lo de artista visual, ou mais especificamente, grafiteiro. Anderson é um exemplo para muitas crianças dentro da comunidade, onde tem um projeto que envolve cerca de 30 alunos na Escola Comunitária de Canabrava.

Desde criança, Anderson já tinha habilidades com a arte visual. Sempre gostou de desenhar e mexer com imagens. Aos nove anos descobriu o amor pela arte de rua e como a maioria dos grafiteiros, introduziu-se com o piche. “O piche e o grafite são filosofias de vida. Não tem motivos para o preconceito, que só aguça a violência. Na verdade, tudo que incomoda a quem está acomodado no poder, passa a ser marginalizado. A arte de rua tem sua essência nisso, na rebeldia e no protesto”, explica Anderson.

Segundo Anderson, mesmo crescendo dentro do epicentro da exclusão, não esperou por ajuda e nem ficou se lamentando. Filho de família pobre, o jovem cursa o segundo ano do ensino médio na escola pública Aplicação de Canabrava e, em paralelo a sua vida acadêmica, distribui arte nos muros da cidade.

Por três ocasiões Anderson chegou a ser preso e humilhado por policiais. Das três vezes, duas estava pichando e uma fazendo arte em grafite. ”Policial não tem pena, mas claro que tem suas exceções. Nas três vezes que fui pego eles me pintaram todo, a tinta ficava duas semanas no corpo e eu tinha que falar para minha mãe que foi uma brincadeira, para evitar preocupação”, desabafa Anderson.


Foi sentindo na própria pele o preconceito social que o jovem decidiu ajudar as crianças de sua comunidade. Segundo Anderson, cada um tem uma missão e ele já descobriu que pode ajudar os outros com o que faz de melhor. “Já cansei de ver gente da minha idade que desistiu de sonhar e lutar nessa selva, que é nossa realidade. Muitos amigos caindo nas drogas para se livrar da própria vida. Então pensei em transformar minha arte em uma ajuda social direta”, comenta.


Anderson passou a dar aulas para crianças que se interessavam no grafite. No começo as aulas eram na sua própria casa, mas com o convite da escola, ele passou a ministrar aulas toda semana para os alunos interessados. Nessas aulas semanais ele ensina as crianças a criar, sempre usando a arte visual como ferramenta. A areografia, para pintar camisas, é uma das técnicas ensinadas.

Segundo ele, o que menos importa nas aulas é saber desenhar ou pichar. “Eu tento mostrar a realidades para os meninos, mas também trago a esperança, sempre me dando como exemplo de luta. Eu costumo dizer que as aulas são mais relacionadas a consciência social do que sobre técnicas de grafite”, analisa.


Além dos projetos com as crianças, Anderson sempre está em parceria com outras comunidades para promover mutirões e festas de movimento hip-hop visando arrecadação de recursos para as comunidades envolvidas. Trobogy, Jardim Esperança e Bairro da Paz são alguns dos locais que Anderson atua com outros parceiros.

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