Gastronomia popular

Posted on 17/09/2008 por

0


O FALA ouviu alguns moradores da Comunidade de Canabrava e traçou um perfil dos seus hábitos alimentares e descobriu que são iguais aos de qualquer brasileiro: variam de acordo com a criatividade e dinheiro no bolso.

por Adriana Barbosa, Amanda Barboza e Luiza Ribeiro

Helena Gomes, 50 anos, dona de um estabelecimento que vende “quentinhas”, prepara quitutes de segunda a segunda na sua própria casa, localizada na Rua Alameda 1, n° 83, Canabrava. Primeiro é cozido, depois frango assado e galinha ao molho pardo. Nas quartas, dona Helena prepara ensopado e bife. Nas quintas, é a vez da feijoada carioca. Sexta, como de costume, prepara moqueca. Sábado é o dia de quem gosta de rabada e mocotó. No domingo, uma deliciosa feijoada. Para quem não quer comer os esses pratos, dona Helena sempre reserva uma carne do sol.

Os pratos são acompanhados de salada de pepino, cenoura, alface e repolho. Dona Helena também serve suco feito da fruta. E o cliente ainda pode escolher entre maracujá e goiaba. Mas ela admite: o povo gosta mesmo é de tomar refrigerante. Ah! A comida tem pouco sal. Quem quiser, coloca no seu prato. O pequeno restaurante de dona Helena recebe todo tipo de cliente: é motorista, cobrador, criança, adulto e idoso. No sábado, o local é mais procurado. Como é ela mesma quem cozinha, dona Helena afirma ter enjoado da comida, por isso, não almoça; faz apenas um lanche com pão ou biscoito. Não come nem frutas, nem salada com freqüência.

Daiane Pereira, 17 anos, que trabalha com dona Helena Gomes toma um café da manhã bem brasileiro. Café com pão, e só. Daiane não faz restrições: almoça o que é servido no restaurante de dona Helena. Come fruta, gosta de suco, bebe bastante água e acaba fazendo quatro refeições por dia: café, almoço, lanche, jantar e, depois, como se não bastasse, toma café novamente. “Eu não me preocupo com minha alimentação não. Como de tudo mesmo e acho que como bem”. Como boa baiana, sua comida preferida leva dendê: caruru, vatapá e afins.


Cecília Brito
, 37 anos, também vende quitutes na sua casa na Rua Alameda 1, n° 104, casa E, Canabrava, só que de uma maneira diferente da de dona Helena: faz somente por encomenda. E aprendeu tudo só olhando a receita. Ela faz uma comidinha bem caseira, preparada com certo detalhe. “Eu faço o que as pessoas querem. É lasanha, feijoada, moqueca, cozido. Já fiz comida até para 60 pessoas”. Sua alimentação é tão brasileira quanto qualquer outra. Pela manhã, uma xícara de café com leite. Às vezes, come uma fruta. Costuma não almoçar. Como descobriu que o açúcar no seu sangue estava alto, Cecília decidiu cuidar mais disso, mas admite que não faz dieta. Por isso, hoje come mais verduras e raramente bebe refrigerantes. “Gosto de uma salada de verdura com brócolis e couve-flor. Eu acho que como bem”, afirma Cecília. Antes jantava. Agora, come algumas coisas que sobram do almoço.


Ane Rose Couto
, 28 anos, também vende quitutes, só que direcionado ao público mais jovem. Ela tem uma lanchonete, que se chama “Lanches da Gabi”,localizado na Rua Bem-Te-Vi, nº 97, Canabrava, onde vende hambúrgueres. Por incrível que pareça, Ane afirma que vende mais sucos que refrigerantes. Sua alimentação não é diferente das demais. Pela manhã, come o tradicional café com pão. Depois, vai direto para o almoço, que costuma ser a base do feijão com arroz ou macarrão. À noite, volta a tomar o café igualzinho como toma pela manhã. Ane também costuma comer verdura. Sua filha, Gabriela Andrade, 6 anos, acaba comendo da mesma forma que a mãe. Como qualquer criança (aquelas que têm pais que dispõe de algum poder aquisitivo), merenda nos intervalos das refeições.


Marluce Santos
, 31 anos, dona de casa, pela manhã, toma café com bolacha e, quando pode comprar, come pão. No almoço, come o tradicional arroz, feijão com carne ou galinha. Quando tem lanche, como qualquer boa mãe, prefere dá-lo para as crianças. Salada, só com cenoura e repolho. Frutas, só quando tem dinheiro para comprar. Ela até come verduras. O suco que a família de Marluce bebe costuma ser daqueles de pó, “tipo kisuki”. À noite, come a mesma coisa que come pela manhã. Marluce gosta de macarrão e sua comida preferida é lasanha. “Se eu pudesse, comeria coisas mais saudáveis”. A sua enteada tem apenas um ano e toma mingau pela manhã e pela noite, mas se vê alguém comendo, vai correndo comer também.


Sônia Ribeiro
, 50 anos, uma dona de casa que vive sozinha, recebe cesta básica do Lar Fabiano de Cristo. Ela sai de Canabrava para pegar os únicos alimentos de que dispõe em Pau da Lima. A cesta básica é composta por feijão, arroz, açúcar, leite, café e manteiga, mas não tem carne. Pela manhã, come mamão e, às vezes, cozinha banana da terra. Segundo ela, come mamão porque sofre de intestino preguiçoso. No almoço, dona Sônia come feijão com arroz e, como geralmente não tem dinheiro para comprar carne, costuma comer ovo.

Abílio Santos, 60 anos, está desempregado e todo sustento que encontra é através de ajuda dos próprios vizinhos. Ele afirma não fazer suas refeições corretamente, por não ter condição financeira, apenas almoça arroz por que é mais barato. Abílio ainda diz que não faz a refeição do café da manhã e do jantar.

A nutricionista responde
Segundo a nutricionista Lindinalva Santos, os hábitos alimentares dessas pessoas são semelhantes a inúmeras comunidades de Salvador.

“A alimentação prioriza comidas que levam um tempo maior para serem digeridas e absorvidas, oferecendo a sensação de bem estar. Os alimentos que oferecem essa sensação são ricos em gorduras saturadas e sal e estão claramente inseridos na cultura alimentar de diversas comunidades, como por exemplo, a feijoada, rabadas, mocotó, moquecas e carne do sol, que provavelmente devem ser preparadas em forma de fritura. Essas comidas podem causar queimor (azia) e oferecem poucos nutrientes benéficos à saúde humana.O desjejum (café da manhã) a base de café, que deve ser adicionado de muito açúcar e pão, oferecem apenas carboidrato como nutriente, ficando deficiente em relação aos outros nutrientes que compõem uma alimentação balanceada.

A utilização de refrigerantes ocorre em larga escala em todas as faixas etárias e o suco de fruta natural é utilizado num percentual menor do que o recomendado. Em relação ao suco artificial, tipo “kisuki”, é altamente prejudicial, pois é produzido com sabores artificiais, conservantes e acidulantes que podem causar desnutrição, gastrites e outras patologias graves. Não há predomínio no consumo de frutas, legumes e verduras e o consumo de leite é relativamente baixo.

Os hábitos alimentares descritos podem causar doenças degenerativas como obesidade, diabetes e doenças cardíacas. Poderia ser substituído o refrigerante por leite; o mocotó, rabada e carnes salgadas por uma carne mais magra. Em termos de mercado, as laranjas e melancias são frutas mais baratas e oferecem nutrientes de alto valor. Os ensopados com legumes, as massas simples, feijão com músculo, arroz com cenoura, carnes cozidas com legumes, carnes assadas com pouca gordura, sucos de fruta natural, são relativamente baratos e nutritivos”.


Quadro de preços


“Lanches da Gabi” (lanchonete de Ane Rose Couto)

Hambúrguer – R$ 1,30

X – Burguer – R$ 1,80

XEg – Burguer – R$ 2,50

Americano – R$ 1,80

Misto – R$ 1

Vara mista – R$ 2,50

X – Tudo – R$ 3

Vitamina – R$ 2

Suco de cacau – R$ 1

Suco de açaí – R$ 2,50

Suco de Frutas – R$ 2,50

Suco de Laranja – R$ 2

Salgados – R$ 0,80


“Restaurante Dona Helena”

P.F. – R$ 5 (sem bebida) / R$ 7 (com refrigerante)

Suco – R$ 0,80

Água – De graça

Quentinha – R$ 6

Prato Comercial para 3 pessoas – R$ 12,50

Casa de Cecília” (comida por encomenda)

Cecília cobra R$ 6 por pessoa, podendo comer o quanto quiser. O suco já está incluso, mas quem preferir refrigerante tem que levar. O almoço é servido na sua própria casa.

Anúncios
Posted in: PERFIS