Comunidade da Rua do Mocambo Ilhado e adjacências

Posted on 10/09/2008 por

0


por Alba Liberato

Aqui estou desde o ano de 1976. Muito tempo, não? O bastante para ter vivido numa comunidade equilibrada, onde todos, ricos e pobres se conheciam, seus meninos brincando com as mesmas bolas, as mesmas gudes, fazendo e empinando papagaios juntos no mês de agosto, tomando banho nos rios que faziam cachoeiras e hortas. O bastante para ter a certeza de que progresso sem discernimento é a pior praga que mentalidades escolarizadas poderiam produzir em futuro próximo. O futuro chegou.

Uma população vinda do êxodo provocado pela ausência de políticas agrárias integradoras, povoou a Estrada Velha do Aeroporto nas brechas deixadas por sítios e fazendas que vieram desde o século XIX.

Pessoas que aqui encontrei com sua cultura rural inteira, vaqueiros, agricultores, rezadeiras, raizeiros e raizeiras, parteiras, gente que se supria dos recursos que ela própria sabia gerar e muito bem. Gente que trabalhava nos sítios ensinando aos que vinham da cidade na onda hippie “paz e amor” em busca do contato com a natureza. E em aqui chegando tinham como fazer novos amigos e admirá-los. Um Viriato, vaqueiro de sete instrumentos, uma D. Irene, cozinheira de mão cheia, uma D. Juana parteira, um Matias sitiante em cuja mão os bichos prosperavam, um seu Manuel marcineiro, uma dona Durvalina ceramista popular e contadora de histórias, um Cecéu artista que nasceu na roça e aqui se revelou, são alguns dos tipos inesquecíveis que marcaram e ainda subsistem nas famílias que deixaram.

Aqui pessoas que transitavam nas esferas de poder na época, criaram barreiras para não asfaltar essa rua Mocambo, paraíso dos meninos que vinham da escola Vera Lux, Adauto, Irmã Elisa Maria, chupando pitanga, jamelão, caju, cajá. No meio da rua o baba rolava, o carrinho de rolimã era soberano, não era permitido carro atrapalhar. Que valor maior se pode carregar na vida que não seja uma infância de alegrias aliviando as dores que havemos de passar? O resto é viver os momentos, sedimentar os valores e descartar o lixos de insatisfação porque se tiver aquela primeira bagagem, está bem suprido para se satisfazer e distribuir o que sobrar. Podia-se circular nas ruas a qualquer hora do dia e da noite. Não se investe contra os que nos dão bom-dia e boa-noite, mais raramente ainda se agride aqueles com quem se brincou e brigou juntos no mesmo tope de criança. Velhos não tinham prazo de validade, não eram descartáveis. Sem eles quem cuidaria dos filhos pras mulheres irem trabalhar, como ter acesso às ervas sabendo o que cura dor de cabeça ou dor de barriga, os recursos de parir em casa, os papos que rolavam nos quintais e nas ruazinhas de Nova Brasília? Os dramas claro que haviam, mas as trocas eram presentes. Que mais se precisa nessa jornada senão compartilhar dramas e a alegria da troca? Trocar uma palavra, uns quiabos tirados na hora, um pratinho de canjica, umas espigas de milho pra fazer um mingau, uns genipapos que caíram na madrugada? O mundo se afastou disso, veremos se haverá algo que nos faça retornar. Muitas vezes construímos o caminho do isolamento pra descobrir que só junto podemos produzir felicidade duradoura.

A região pouco povoada começou a receber os excedentes dos desastres ecológicos que Salvador sofria na forma das chuvas que fazem parte do clima tropical. Culpa das chuvas? Ou dos governos que permitem e até criam seus programas baseados nos problemas que eles próprios deixaram crescer e se multiplicar? Crescimento ordenado existe e é a única forma de preservar qualidade de vida em cidades e até países inteiros, criam-se regras atribuindo-se ao seu cumprimento o respeito ao direito das gerações futuras. A região começou a receber mais impacto do que o que podia absorver. As populações chegavam inteiras da noite para o dia, elas próprias vítimas da política que proporciona uma casa-abrigo e quanto ao resto das necessidades que cabem ao Estado, cada um que se vire. E se viraram. Comunidades como Jaguaribe só tiveram água encanada depois de 10 anos de luta e sofrimento em filas de carros-pipa. Lutaram todos e continuam lutando pelo mínimo básico de uso coletivo: água, transporte, escola, embora paguem os impostos do mesmo jeito que qualquer outro cidadão de Salvador.. Existem programas de integração social e encaminhamento das questões que são competência do Estado, hoje as chamadas políticas públicas, então porque não são incluídos no pacote desde o início como solução encaminhada no amparo às populações removidas?

A virada do século aconteceu. Dr. Jorge, clínico geral que tem servido como vizinho, amigo e médico das famílias, está aí inteiro, lúcido para contar a história do acontecido, “Mocambo” foi fazenda propriedade de sua família. Mudou alguma coisa? Claro, não são mais os agricultores que chegam aqui por falta de terra e de emprego no campo, mas a classe média que tardiamente tem direito a uma casa para morar. A região então ganha novo povoamento. Mas compensa isso em qualidade de vida pras pessoas, os que já estavam e os que chegam? O século XXI. caracterizou a nova onda, moradias financiadas por instituições públicas suprindo o déficit que o país ampliou desde sempre, isto é sua função. Nada mais correto que isso. Ainda mais quando essa instituição financiou encontros de alta competência e publicou uma cartilha sobre impactos causados pela expansão das cidades no meio ambiente, como fazer para preservar. Está aplicando os princípios gerados nos encontros que promoveu visando preservar o bem maior que os cidadãos encontram no quintal do conjunto habitacional em que moram? Nascentes de água, Mata Atlântica, diversidade de pássaros, recursos da natureza para que as populações do entorno otimizem e gerem renda, como frutos, sementes, espécies de bambu. A região mantém sua categoria de periferia pobre que agora recebe a classe média tirando das futuras gerações, qualquer que venha a ser sua classe social, tirando a única riqueza que nenhuma instituição pública por mais bem intencionada que seja pode restituir aos cidadãos, seu ativo natural: o rio Mocambo que fertilizou todo o vale, as pequenas cachoeiras que receberam as oferendas sagradas, os frutos que satisfizeram em cada estação a meninada alimentando-lhes corpo e espírito, as ervas que fazem a farmácia a que se deve recorrer no país que já fornece a matéria prima da farmácia do mundo inteiro. Nós que nos colocamos com o pé neste chão generoso precisamos acordar e queira Deus tenhamos tempo de construir e lutar pela utopia possível, apontada pelos desastres naturais que se sucedem em escala impressionante: ou se coloca a Natureza como patrimônio dos patrimônios que o homem pode gerar daqui por diante ou se preparem, ricos e pobres, para aprender sobre solidariedade e fraternidade no fogo das tragédias que mais cedo ou mais tarde estamos permitindo acontecer. Por ação, ou por omissão. Estamos todos na mesma nave. A rua Mocambo também.

Anúncios
Posted in: ARTIGOS