Com a mão na graxa

Posted on 03/06/2008 por

0


Mecânicos aprendem profissão na infância
por Lízia Sena

6h. Os mecânicos da estrada velha do aeroporto já estão saindo de casa para mais um dia de trabalho com seus filhos aprendizes. Alguns veículos já estão a espera guardados nas oficinas, outros chegam aos poucos. Quem passa em frente aos estabelecimentos já reconhece as oficinas pelo barulho universal dos maçaricos, furadeiras e martelos das diversas oficinas. 

Dentre os serviços oferecidos estão à chaparia, pintura e mecânica. Mas algumas oficinas se diferenciam pelos tipos de carros trabalhados. “Temos especialidade em carros importados. Não é que trabalhamos melhor que os outros, mas nos preocupamos em detalhes na qualidade e muitos não se dedicam a isso, querem apenas ganhar o dinheiro do cliente”, diz o proprietário da oficina Bujaca,localizada no bairro Vila Mar, Luis Augusto, 40 anos, também conhecido como bujão.

Luis Augusto, como a maior parte dos mecânicos, aprendeu a profissão durante sua infância e atualmente ensina aos jovens funcionários em sua oficina localizada no bairro Vila Mar. “Quando eu tinha 10 anos, aprendi com meu cunhado. Dediquei-me. Naquela época o adolescente chegava à idade de 12, 13 anos e os pais os ocupavam na oficina pra não ficar na rua, usando droga que hoje você vê fazer. Hoje não vê menino trabalhando na profissão. O pai se preocupa no salário do menino e não em ele aprender a profissão”, afirma. Ele também explica que as crianças começam varrendo, lavando pneus, trabalhos simples e aos poucos vão aprendendo a se tornar profissionais de qualidade.

O proprietário da auto-elétrica no quilômetro sete, Agnaldo Bahia, 47 anos, também explica que aprendeu a profissão desde pequeno com seu pai: “Aprendi por curiosidade de menino. Nossos pais colocavam para nos ocupar e eu achava interessante aprender sobre carros. Carro era a vida naquele tempo. Sofri um bocado para aprender”. Agnaldo trabalha há 35 anos na profissão. Já foi empregado de concessionária de caminhão, empresa de ônibus e fez vários cursos no Brasil. Apesar de já ter trabalhado de carteira assinada, hoje tem sua própria oficina e afirma estar contente com tal liberdade, mesmo contribuindo para o INSS. Atualmente Agnaldo trabalha com ajuda de seus dois filhos aprendizes: “Trabalho com meu filho mais novo de 12 anos que estuda, me dá uma ajudinha e joga uma bolinha. O outro viajou, fez engenharia eletrônica. Fez técnica de segurança no trabalho pra se manter na profissão. Ele ganhou uma bolsa, foi esforço dele, mas eu dou sempre uma ajuda”, afirma.

O rendimento é essencial, suficiente. “Dá pra pagar luz, água, botar gasolina no bobozinho velho que eu tenho, comida pro cachorro e tomar uma cervejinha. Não dá pra cumade brigar no fim do mês”, explica Agnaldo. Já a oficina de Luis Augusto apesar de ter retorno suficiente, também tem algumas dificuldades: “Tem meses que eu pago pra trabalhar, mas satisfeito também. Todo lugar tem dificuldade na área de automóvel, toda semana levo meu dinheirinho”.  Uma das soluções de acordo com um dos trabalhadores e proprietários da auto-elétrica e borracharia de Vila Mar, Carlos Antônio, 49 anos, seria melhorar a estrutura do EVA. “O preço do aluguel é muito caro, mas o retorno é suficiente para viver. Se o entorno da estrada velha tivesse bem estruturado seria melhor”, afirma Carlos.

Emprego

Os moradores das comunidades no entorno do EVA são beneficiados ao serem preferidos para trabalhar nas oficinas, apesar da área ser um ambiente geralmente familiar, no qual trabalham pessoas da própria família ou amigos mais próximos. O salário varia a depender da capacitação de cada funcionário. O pintor, Rafael Oliveira ganha R$ 700, mas alguns recebem um salário mínimo apenas.

Os clientes da comunidade são poucos, de acordo com Luis Augusto, sendo a maioria de outras localidades. Mas o proprietário da Agência Santana (concerto de bicicletas), Silvano Souza, 23 anos, afirma que o movimento é bom, principalmente em épocas festivas.

Anúncios
Posted in: TRABALHO