Lar, impróprio lar

Posted on 27/05/2008 por

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Alguns moradores de Canabrava convivem com o medo de acordar sem ter onde morar
por Amanda Barboza

Qualquer chuvinha e lá vem mais uma noite em claro. É assim que muitas famílias de Canabrava costumam passar as noites de chuva. Famílias inteiras temem que o dia amanheça trazendo uma triste história para contar.

Uma parte das casas, principalmente as que estão nas baixadas e encostas, construídas sem qualquer infra-estrutura, representam risco de morte a seus moradores. Sem fundação, feitas de tábuas e até mesmo sem banheiro, o que era para ser um lar se transforma em um local de insegurança.

Lucineide Mendes dos Santos, 28 anos, mora num cômodo sem banheiro em Canabrava. A sua casa é feita de tábuas e, olhando de dentro, dá para ver frestas por onde entra a luz do sol. Lucineide está grávida de seis meses e mora no local há quase um ano com o marido e o filho. “Quando chove é arriscado. Caem uns pedaços de barro que descem pelo morro e tem uma jaqueira aqui atrás que dá medo”, completa Lucineide.

O marido dela fez o encanamento e a instalação elétrica, que fica visível pelo teto da casa. Mas é a ausência de um banheiro o que causa maior incômodo: “Tem um banheiro lá fora só pra gente tomar banho. As outras coisas a gente faz e joga lá pelo esgoto”, afirma a dona de casa.

Elizangela de Souza, 26 anos, construiu com as próprias mãos o lugar onde mora com os dois filhos. “Fui eu que fiz minha casa. Deus foi ajudando”, completa Elizangela.

A casa tem um cômodo e um banheiro feitos de tijolos, tem encanamento e instalação elétrica. Segundo Elizangela, não é a chuva que mais dá medo: “A gente se preocupa mais com as formigas e com as árvores grandes porque a raiz vai entrando pela casa”.

Não muito longe dali mora Maria José de Jesus Gomes, uma senhora bem humorada, de 56 anos. Mudou-se para Canabrava, onde mora com o filho, depois de sofrer um acidente que lhe custou os movimentos da perna direita. Segundo ela, o responsável pelo acidente assumiu seus custos por quatro anos. “Ele me encostou. Só que o que eu ganho não dá pra pagar um pedreiro. Se eu pagar R$ 20 por dia eu vou comer o quê?”, questiona Maria José.

A casa dela é feita de tábuas finas que se soltam com facilidade. “Não durmo nem de dia nem de noite. Qualquer moleque mal pode rasgar isso daí”, afirma a dona de casa referindo-se às tábuas que formam a parede da sua casa.

Áreas de risco: Em Salvador, 433 lugares apresentam riscos, segundo o Plano Diretor de Encostas (PDE). De acordo com a assessoria da Codesal, alguns locais de Canabrava estão entre essas áreas de risco.
Quanto ao risco de desabamento, a Codesal afirma que “quando está ameaçado de desabamento ou ocupa uma área sujeita a acidente grave, a Defesa Civil notifica o morador para deixar o local imediatamente e o encaminha para a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), órgão municipal responsável pelo atendimento social a pessoas desabrigadas”.

“As pessoas não têm dinheiro para comer, como vão adquirir lotes ou imóveis? Isso sem falar na tal da moradia digna, que se formos analisar, as casas feitas em áreas de risco, com materiais precários e a inexistência de escrituras (ou seja, de legalização do imóvel), pode chegar a um percentual de 70% da cidade do Salvador”, afirma Raphael Cloux, mestre em Análise Regional.

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Posted in: CIDADE