Bate Laje: Diversão e alegria

Posted on 27/05/2008 por

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Construções no bairro de Canabrava são regadas a música e boa comida
por Caio Barbosa

Mal acabou o carnaval e o encanador Derivaldo de Jesus, 47 anos, resolveu finalmente colocar em prática o seu plano. Para isso, convocou cerca de 15 jovens das proximidades da Rua das Garrinchas, no bairro de Canabrava, para ajudá-lo a fazer o seu  puxadinho. Enquanto Derivaldo trabalhava com os vizinhos, a dona de casa Vera Lúcia, esposa do responsável por toda aquela movimentação, preparava os petiscos para alimentar todo mundo.

Tinha comida para todos os gostos: chouriça toscana, carne e salada. Faltou a feijoada porque dona Vera não tinha se programado para o batalhão de gente que veio para o bate laje. Era quase meio-dia, quando finalmente a equipe de seu Derivaldo acabou de construir mais um cômodo da casa. “Só não fizemos mais uma parte porque não tinha espaço. No lugar vazio tinha os materiais”, falou dona Vera empolgada com a construção.

A história do casal Derivaldo e Vera Lúcia é marcada por idas e vindas. Desde quando chegaram a Canabrava, eles não haviam decidido ficar lá realmente. Para esclarecer essa dúvida, resolveram viajar com certa freqüência para Madre de Deus, a outra possibilidade de moradia. O tempo passou, os dois foram se cansando de viajar, e devido ao alto custo das casas em Madre de Deus, optaram por ficar em Salvador. Compraram uma casa pequena, foram se ajeitando. Quando o dinheiro entrava, surgia um cômodo ali, outro cômodo acolá, sempre com a ajuda dos vizinhos, naquela festança característica de um bate laje. Hoje, dona Vera Lúcia e seu Derivaldo continuam dispostos a construir. “Vamos terminar essa casa. Falta bater uma laje ali em cima e umas coisinhas mais”, disse a dona de casa.

Custos
– Muitas pessoas vêem no bate laje comunitário uma oportunidade de economizar com mão de obra. Além disso, são gastos tijolos, areia, blocos, brita entre outras coisas que surgem com o decorrer da obra. Para seu Derivaldo construir um cômodo de aproximadamente 13 m² foram gastos cerca de mil reais. Nesse cômodo ele pretende fazer sua sala, mas enquanto não fica pronta, serve de alojamento para materiais e para criação de passarinhos.

Mas nem todos pensam igual a seu Derivaldo. A poucos metros de onde mora, uma casa chama a atenção dos transeuntes.  Não é bem uma casa, mas um prédio com dois andares altos. Nele moram quatro pessoas: o aposentado Cezário dos Santos, sua ex-mulher Maria da Glória de Jesus e suas duas filhas. A casa não foi construída pela vizinhança. Eles optaram por contratar um pedreiro, cuja mão de obra custou R$30 por dia. “É mais seguro fazer com um pedreiro. E com o custo dos comes e bebes se eu fosse fazer com o pessoal daqui acabava ficando a mesma coisa”, alegou Cezário. 

A casa que era pequena acabou ficando grande e confortável. Sempre simpática, dona Maria da Glória fez questão de apresentar sua casa. São dois quartos amplos, cozinha, banheiros e sala. A obra ainda não acabou. Eles têm a intenção de construir mais, assim que um dinheiro extra aparecer.

A vizinha de porta de seu Cezário também teve que parar sua construção. Contratou pedreiro, comprou o material, mas tudo isso não foi o suficiente para concluir a obra. “Faltou dinheiro pra acabar. Mas aqui eu vou aumentar minha casa. Quando ela ficar pronta vai ter dois quartos, sala, cozinha e banheiro”, disse a jovem de 25 anos Aline Santos carregando seu bebê. 

Com a palavra, o engenheiro – As pessoas dos bairros de baixa renda se acostumaram com essa idéia de bater laje em conjunto. Mas não se sabe ao certo se esse método é seguro, se com o decorrer do tempo a construção não fica condenada, entre outros fatores. Segundo o engenheiro civil Carlos Carneiro, esse método de como uma grande parcela da população constrói suas casas não é nada seguro. “São vários fatores que fazem com que eu não ache adequado esse modo de se construir. Pode ser perigoso, além de que muitas pessoas salvem as exceções, não tem o conhecimento suficiente para fazer aquilo. Fora isso, essas construções não obedecem a normas técnicas da engenharia e não são devidamente fiscalizadas pela prefeitura.”, afirmou o engenheiro.

Quanto a segurança, Carneiro alegou: “É necessário um mínimo de aparato técnico para se construir seja lá o que for. Desde uma laje a um edifício de 20 andares. Não é recomendado qualquer pessoa entrar em uma obra sem capacete, luvas, escadas específicas, e uma série de itens que favorecem a segurança da pessoa”. 
Ao ser perguntado sobre a solução para esses famosos bate laje ele respondeu que não culpa os moradores, e sim os órgãos públicos que não dão condições suficientes para essas pessoas comprarem materiais com um menor preço, não disponibiliza uma mão de obra especializada e barata e finalmente não fazem a devida fiscalização nessas áreas a serem construídas.

Pedreiro, mãos à obra – Porém, o pedreiro Ramon Alves Souza, que vive de suas pequenas obras para sobreviver garante: “Tenho mais de 15 anos de profissão e nunca quebrei uma perna. É claro que de vez em quando acontecem alguns acidentes, mas nada que não possa acontecer com uma obra grande. Quando não se tem um dinheirinho bom, é só chamar um pedreiro entendido que ele vai fazer o mesmo que um engenheiro formado. Tudo que sei hoje aprendi na prática, e meus conhecimentos nunca me deixaram na mão”, exaltou-se o pedreiro, que cobra em média R$50 por um dia de trabalho.  

Seja com engenheiro ou pedreiro o que realmente acontece é que a população dos bairros desfavorecidos da cidade não tem condição de arcar com todo o custo e estrutura que uma grande obra requer. Mas nada que a comunidade unida não resolva. Afinal, para que combinação melhor do que uma feijoada, com uma cerveja gelada e um arrocha tocando no som? Não tem casa pequena que resista.

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Posted in: CULTURA