Tata Anselmo: vida nas religiões de matriz africana

Posted on 28/11/2007 por

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por Daiane Hilário 
Fotos: Patrícia Bitencourt

Toca o tambor, homens e mulheres de branco em volta de uma roda a dançar. Hoje é festa no terreiro, vamos todos comemorar! Filho de Oxum, filha de Yemanjá, todos em harmonia em uma só cantiga. Folhas espalhadas pelo chão, como tapetes para receber as divindades, entre elas a mais bela das belas, Nkisi Dandalunda, rainha das águas doces, mãe de Tata Dya Nkisi Minatojy, sacerdote do Terreiro Mokambo. Estamos falando de Anselmo José da Gama Santos, 52 anos. Nascido no dia 19 de fevereiro de 1955 na cidade do Rio de Janeiro, décimo terceiro filho de Severino José dos Santos e Amália Lopes da Gama Santos, família de classe média, seguidores dos padrões católicos da época. Homem de personalidade marcante, crente dos poderes da natureza, acredita em uma força maior que rege sobre o ser humano e o fortalece.
Aos 16 anos foi trazido por seus familiares para Bahia, para tentar uma nova vida. Em 18 de janeiro de 1996, fundou o Terreiro Mokambo, de nome religioso Onzó Nguzo za Nkisi Dandalunda ye Tempo, que significa Casa da Força Espiritual das Divindades Dandalunda e Tempo, localizado na Vila Dois de Julho. Lá, desenvolve trabalhos religiosos e atividades para beneficiar a comunidade, dando visibilidade à cultura banto, que por anos afora tem sido deixada no esquecimento.

A escolha do bairro para implantação do terreiro foi feita pela divindade Dandalunda. Depois de instalado se soube que lá, provavelmente teria existido um quilombo.
O seu primeiro contato com a religião africana foi aos 16 anos, através de visitas a um terreiro de umbanda de pessoas amigas. A partir dali iniciou sua vida espiritual. “Cada um na vida tem uma missão e a minha missão é uma missão religiosa. O candomblé não é uma religião de conversão, nem de escolha e sim de escolhidos e eu fui escolhido para fazer parte dela”, disse Anselmo.

Curioso, como todo jovem, à procura de novas descobertas, a religião africana se mostrou diferente e isso despertou a atenção de Anselmo. A partir desse momento começou um conflito interno, devido à inexperiência, o medo do desconhecido e a falta de conhecimento religioso. Ocorreu também um conflito com seus familiares, adeptos da religião católica, que por falta de conhecimentos sobre o candomblé tinham resistência em aceitar e respeitar sua escolha.

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 Ele se formou em Secretariado Executivo pela Universidade Católica do Salvador e dirigiu sua vida profissional para a área de comunicação. Desenvolveu diversas atividades nas emissoras de televisão locais firmando-se profissionalmente como produtor executivo.

No ano de 1974, Anselmo se iniciou num terreiro de Angola, onde a divindade da água doce Nkisi Dandalunda deu o seu nome espiritual. A curiosidade pela religião se transformou em amor, aumentando ainda mais o interesse pela cultura africana, fazendo com que ele se engajasse em estudos sobre o assunto, se especializando com pós-graduação e, logo em seguida, mestrado na área. Em 1993, fundou a Associação Beneficente Pena Dourada, que até então vem desenvolvendo projetos sociais, como a reabertura da fábrica de velas e a implantação de um inforcentro de informática, em benefício da comunidade do Vila Dois de Julho e adjacências.

“Como todos nós sabemos, a religião do candomblé é comunitária por excelência e todas as atividades desenvolvidas num terreiro são voltadas para melhorar a qualidade de vida e a auto-estima de seus seguidores. E como os terreiros de candomblé em sua grande maioria são localizados nas periferias das cidades, podemos ver mais de perto a necessidade do nosso povo e aí entra a grandeza dos ensinamentos de nossa religião”, diz Anselmo.

(outubro de 2007)

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