PSF de Canabrava reduz pacientes em emergências

Posted on 28/11/2007 por

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Equipes de PSF conseguem conscientizar as famílias de Canabrava da importância de prevenir doenças

por Patrícia Oliveira
Foto: Pedro Cavalcanti

Enquanto muitos estão dormindo, a fila cresce nos postos de saúde e nas emergências de hospitais. Crianças chorando de um lado, mães do outro, rostos impacientes e mais pessoas chegando. Ansiosas para solucionar seu problema de saúde, elas esperam. Maria Helena de Jesus, de 59 anos, também não tem condições de pagar um atendimento, mas desde que o Programa Saúde da Família (PSF) foi implantado em Canabrava, tudo mudou. Maria Helena sente-se muito melhor agora, que pode ter um acompanhamento médico gratuito para tratar o diabetes e a hipertensão. A agonia de ser levada às pressas ao posto pelo marido por conta de crises, nas madrugadas, já não acontece mais.


Criado no Brasil pelo Ministério da Saúde desde 1994, o PSF surgiu com a finalidade de reeducar as famílias a respeito de cuidados com a saúde, ou seja, ensiná-las que devem tratar-se antes da doença surgir, já que quando isso acontece algumas vezes o tratamento pode não ter um resultado satisfatório. Para o funcionamento do PSF é preciso um posto de saúde direcionado especialmente para os pacientes do programa.

Tudo começa com as visitas dos agentes de saúde, profissionais treinados que são a ponte entre o posto e a comunidade. Cada um deles é responsável em média por 160 famílias por mês. Os agentes só podem trabalhar no bairro onde moram e a função deles é ir às casas dos moradores do bairro, explicar o que é o programa, ouvir as queixas da comunidade, fazer um relatório detalhado sobre a visita e passar para os profissionais responsáveis (médicos, dentistas e enfermeiros) que analisam a melhor forma de atendimento.

Essa prevenção faz com que a superlotação nas emergências de postos de saúde e hospitais diminua, pois, quando as pessoas aprendem a se cuidar, as complicações demoram de aparecer. Na Bahia, o programa existe desde 98 e no bairro de Canabrava, há quase três anos. Somando com o bairro de Pau da Lima, esses são os dois únicos postos de PSF na região da Estrada Velha do Aeroporto (EVA). A empregada doméstica Ofélia Pereira, 25, participa do Programa há dois anos e considera muito proveitoso: “Tenho três filhos, mas nessa última gestação, há um mês, aprendi muitas coisas. Participei das reuniões e aprendi como segurar o bebê pra amamentar, como tratar da azia. Antes, quando tinha azia sempre bebia leite pra tentar passar, mas é ao contrário, leite provoca mais”, diz.

O PSF segue um padrão em todo Brasil, inclusive em relação a tratamentos. São quatro equipes de saúde, compostas por quatro médicos, quatro enfermeiros, oito técnicos de enfermagem, dois dentistas, duas assistentes de dentistas e seis ou sete agentes de saúde em cada grupo. As ações ocorrem nas áreas de tratamento de doenças como tuberculose, Hanseníase, diabetes e da hipertensão e na saúde do idoso. Além de promoverem campanhas de imunização. Trabalham também com clínico geral, pediatria e fazem exames preventivos. Embora receba recursos federais, o programa é gerido pelo município.

Funcionamento
As consultas na maioria das vezes acontecem no posto, sendo apenas na casa do paciente quando ele não pode se locomover. “Ainda não existe uma cultura de medicina preventiva no Brasil. Mas estamos conseguindo alcançar o objetivo, pois as equipes sempre fazem palestras explicando o que é o PSF. Para essa conquista o trabalho dos agentes é imprescindível”, explica a gerente da Unidade de Canabrava, Maria Luiza Ramos.

O agente de saúde Derivaldo Matos, de 40 anos, mais conhecido como Neném Calabar, visita 147 famílias por mês em Canabrava e diz que para trabalhar nessa profissão, vocação é a palavra-chave, pois o atendimento é diferenciado. “É preciso ter perfil, gostar, dar mais atenção às pessoas, conversar com elas. Não é qualquer um que tem condições, não”, garante. A agente de outra equipe de Canabrava, Rosália Santos, 26, completa: “Acho um trabalho interessante, eu gosto. Geralmente muitas pessoas já conhecemos, mas ao longo do tempo vamos criando um vínculo de amizade.

Embora o programa funcione bem, o clínico geral Edílson Bento, que atende no PSF de Canabrava, afirma que ainda pode melhorar se houver ampliação no posto e mais preocupação com a reposição de materiais. “A unidade foi projetada para trabalhar com duas equipes, mas o bairro é grande e para tentar suprir a necessidade da população foi preciso incluir mais duas, totalizando um grupo de quatro. Porém muitas vezes há profissional (médico e dentista), mas não há consultório para atendimento. Além da falta de material de limpeza, formulários para receitar os medicamentos e anticoncepcionais”, explica o clínico.

Atraso salarial
Mesmo em um trabalho mais humanizado, como o do agente de saúde, a falta do salário pode ser desestimulante para a continuidade de serviços. Cerca de cinco agentes de saúde de Canabrava estão sem receber pagamento e benefícios como vale-tansporte e ticket alimentação. A situação foi provocada porque os trabalhadores passaram a ser efetivos da Prefeitura de Salvador após a saída, desde agosto, da Real Sociedade Espanhola, empresa terceirizada. Os agentes e componentes que integram equipes de PSF só estão recebendo o salário mediante liminar do Ministério Público do Trabalho, a partir de uma solicitação do SINDACS (Sindicato dos Agentes Comunitários de Saúde e Contendores de Doenças Endêmicas e Epidemiológicas do Estado da Bahia).

A Secretaria de Saúde do Município (SMS) diz que os agentes que estão sem receber salários e benefícios ainda não foram contratados. E para serem admitidos terão que prestar prova de seleção. A Secretaria ainda ressalta que, dos 1.586 agentes comunitários de saúde de Salvador, apenas 42 ainda não foram contratados. “O quê que adianta ser funcionário público sem receber dinheiro? Antes era melhor. As pessoas têm família, contas para pagar”, aponta Lázaro Figueiredo, coordenador de comunicação do SINDACS – BAHIA

Brasil 
Segundo estatísticas de 2002 do Ministério da Saúde, no Brasil o PSF atende 53,5 milhões de pessoas, ou seja, 31% da população do país, sendo 16.192 equipes atuando em todos os estados. O Programa está presente em 75% dos municípios brasileiros, principalmente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Na Bahia foi inserido pela Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (SESAB) e atua hoje em 52 municípios, dispondo de 176 equipes, sendo que cada equipe de PSF é responsável pelo atendimento, em média, de 1.000 famílias.

(novembro de 2007)

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