Dignidade espancada

Posted on 07/11/2007 por

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por Murilo Gitel

“Violência é o estado em que os seres humanos são tratados como objetos ou coisas”. A definição é da filósofa Marilena Chauí e tem muito a ver com a nossa realidade. É que a violência contra as mulheres em Salvador tem crescido assustadoramente nos últimos anos. Só costumamos lembrar da agressão física, mas alguém já pensou que esses espancamentos também deixam grandes seqüelas que afetam a saúde mental das vítimas?

Segundo dados fornecidos pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps) do bairro Pau Miúdo (o mais próximo da Estrada Velha do Aeroporto), 126 ocorrências relacionadas à violência contra a mulher nas comunidades do entorno da Estrada Velha do Aeroporto foram registradas desde o início deste ano, o que dá uma média de 12,6 agressões por mês, isso sem contar os casos que as vítimas deixam de relatar, geralmente ameaçadas pelos próprios parceiros. Os cientistas sociais Watts e Zimermann publicaram um estudo sobre este tipo de violência há cinco anos e definiram esses abusos como o resultado das relações de poder entre homem e mulher, tornando-se visível a desigualdade que há entre eles, onde o masculino é quem determina qual é o papel do feminino. Já um estudo da Assistente Social Iracema Viterbo Silva realizado em um hospital de emergência de Salvador a respeito do tema constatou que de 701 entrevistas com mulheres na faixa etária de 15 a 49 anos, 321 confessaram ter sido agredidas física, sexual e/ou psicologicamente.

As agressões psicológicas ou assédio moral costumam ser a origem das violências sexuais, marcadas pela brutalidade física. Os boletins de ocorrência das delegacias de apoio a mulher costumam registrar entrevistas que deixam bem claro a presença de xingamentos da parte do parceiro no momento da agressão, geralmente fazendo referência preconceituosa a fatores como a cor da pele, posição social e fatores estéticos como a gordura. Pesquisas realizadas por diversas instituições feministas e universidades costumam dar mais relevância ao aspecto social relacionado à violência contra a mulher.

Normalmente, esses estudos são centrados em áreas periféricas das grandes cidades, como Salvador, onde a desigualdade das classes é gritante. Dessa forma, os meios de comunicação costumam noticiar somente os casos de violência doméstica contra as mulheres em bairros periféricos da cidade, como se esses abusos não ocorressem também no seio da classe média/alta.    Aí está outro ponto importante para que todos nós possamos refletir. A mulher não apanha apenas na cara, na barriga e no sexo, meus amigos, mas também na mente, no coração e na alma.

A chamada Lei Maria da Penha, Lei nº 11.340/06 visa coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, além de prever punições severas para os agressores e formas de proteção, sem contar o apoio psicológico às vítimas. Geralmente, tudo começa com um xingamento, um empurrãozinho ali, um arranhão mais na frente até a perversidade completa, quando a situação extrapola todos os limites. Eu penso que faltam campanhas educativas mais esclarecedoras a respeito da importância de se denunciar esses abusos contra a mulher, bem como uma lei mais rígida para os covardes agressores independentemente do tipo de violência praticada.

E quanto à omissão nos casos em que percebemos a vizinha sendo agredida, geralmente pelo “companheiro”, mas nos calamos covardemente como se nada tivéssemos a ver com isso? Nesses casos, precisamos sim, meter a nossa colher e denunciar com urgência! Alguém já se preocupou em pensar se a vizinha apanha do marido? Do contrário, a dignidade, o brio e a alto-estima destes seres sagrados que nos trouxeram ao mundo é uma dignidade espancada, subtraída por intermédio de um mau-caratismo desumano e que só vem a apresentá-las como estatísticas negativas de maus-tratos, assassinatos, mas, principalmente de falta de companheirismo e amor. Mulheres de todos os cantos: Uni-vos!                                                             

(novembro de 2007)

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