O lado gay de Canabrava

Posted on 31/10/2007 por

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por Arivaldo Almeida

Nascido e criado em Canabrava, o cabeleireiro e homossexual Jurandir dos Santos, 21 anos, conhecido artisticamente como Paloma Kadilac, declara-se feliz pela sua orientação, especialmente por ter a comunidade como alicerce. O bairro permite a ele realizar-se como pessoa e cidadão, extravasando o seu lado feminino, e cativando o respeito dos moradores. A “mulher”, como é conhecido, distribui simpatias e elegância pelas ruas.

Jurandir descobriu-se gay cedo, quando via fotos ou imagens de homens usando sungas na TV, ou quando eles passavam pelas ruas de Canabrava. O desejo pelo mesmo sexo aumentava dia-a-dia. As brincadeiras de casinha, boneca e baleado (tidas como de meninas), faziam parte das suas peraltices de crianças, não esquecendo o “ono um” – brinquedo feito de elástico.

Ao se deparar com a puberdade e adolescência, início dos anseios sexuais, Jurandir utilizava a imagem de homens musculosos e malhados para se masturbar, chegando ao êxtase e se sentindo cada vez mais atraído por eles. Hoje, ele mantém relações naturalmente com os meninos de Canabrava, embora às escondidas, pois ficam com medo das chacotas que os outros podem fazer.

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Os moradores do bairro utilizam os serviços de Jurandir como cabeleireiro, que atende em sua própria casa ou na casa dos clientes. A procura é grande e o cabeleireiro mais famoso de Canabrava consegue com sua irreverência cativá-los da “cabeça aos pés”. E, por falar em pés, aos domingos, Jurandir se transforma em Paloma e junto ao som feito pelo grupo “Bicho da Cana”, cai na roda e transborda de felicidade e emoção. “Sambar enquanto eles cantam para mim é uma satisfação, a música, o momento e toda aquela gente em volta de mim me deixa enlouquecida”, declara Paloma.

Ela, Paloma, e ele, Jurandir, se misturam numa performance singular. Roupas e modelitos apropriados para o baile e cabelo trançado até a altura da cintura, fazem dele ou dela a atração da noite. O palco é deles, que unidos formam uma unidade ímpar de ser e viver, num universo bem diferente do que é vivido pelos jovens gays de classe média-alta que, dentro das suas casas em bairros nobres, escondem seus verdadeiros anseios e desejos, e utilizam veículos como TV e revistas na tentativa de satisfazer-se.

Andar acompanhado de Jurandir pelas ruas da comunidade é sinal de reconhecimento. As pessoas falam, cumprimentam e o chamam de “Mulher”. A estudante Denise Santos, 20 anos, diz respeitar a orientação do colega, especialmente por ele estar satisfazendo a si próprio. Joel Santos e Tarcísio Santana, moradores de Canabrava, declaram que não têm preconceitos, vêem Jurandir como uma pessoa normal, igual a qualquer outra.

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O desempregado e pai de Jurandir, José Bispo, 59 anos, diz não se orgulhar, mas também não condenar a orientação do filho, especialmente por ser um jovem que trabalha e ajuda no sustento da família. “Eu nunca imaginei que dos meus 10 filhos teria um gay, mas prefiro que seja assim do que marginal ou ladrão e viver envergonhando a família. Mas eu tive um sinal ainda quando ele tinha um mês de nascido, é coisa de Deus”, disse José.

O historiador Alberto Heráclito explica que a palavra gay surgiu após a medicina. Para ele, “os homens antes mantinham relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo sem cobranças. O desejo era que vinha em primeiro lugar”, disse Alberto. Da antiguidade até nossos dias, várias foram as batalhas, e não seria diferente em Canabrava. Todos os dias a comunidade trava verdadeiras guerras: fome, desemprego, preconceitos, mas Jurandir consegue viver e ser feliz no mundo construído por ele e pelas pessoas que residem ali. Acredita em sua plena felicidade junto a comunidade, e ainda diz não gostar de ir ao centro de Salvador, pois as pessoas utilizam apelidos e nomes pejorativos para denegrirem a sua orientação.

(outubro de 2007)

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