Capoeira do bem

Posted on 10/10/2007 por

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Por meio da capoeira, Mestre Carlinhos resgata a auto-estima dos jovens do bairro
por Victor Braid
Fotos: Ricardo Ramos e Victor Braid

Salve! De longe já se ouve o som exótico do berimbau, pandeiros e cantos acompanham os alunos do Mestre Carlinhos a se embalarem em um jogo cheio de ginga e história. As aulas acontecem na Sede Recreativa do bairro de Canabrava em frente a Cesta que era para ser do Povo. Com paredes brancas, a casa é simples, dentro, um espaço pequeno cheio de cadeiras amontoadas em redor. O chão irregular não impede os alunos de dar os mais inusitados golpes de capoeira, como o rabo de arraia e o martelo. Apesar do espaço da roda ser limitado, os sonhos dessas pessoas não têm limite.


Assim é o pintor Carlos Antonio da Silva, 48 anos, ou simplesmente Mestre Carlinhos, como é conhecido no bairro de Canabrava. “Capoeira para mim é tudo, minha vida, meu ar, o motivo de todos os dias eu sair da cama e querer enfrentar a vida. Eu vejo a capoeira como uma arte, mas também é defesa e ataque, disciplina e disposição para encarar as coisas de frente”, avalia o mestre. Carlinhos ensina capoeira para os jovens do bairro a um preço simbólico de R$ 10, só para ajudar na manutenção da sede. “Antes eu não cobrava, mas com as despesas do lugar, passei a cobrar essa quantia só para ajudar na luz no fim do mês. Teve pais que tiraram seus filhos das aulas por acharem que estou interessado no dinheiro, mas tem alunos que nem o uniforme tem condições de ter e esses eu ajudo”, exclama Carlinhos.

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Ele lembra que foi em dois de fevereiro de 1973, na lavagem do Rio Vermelho, aos 10 anos de idade que iniciou sua jornada na capoeira. Desde então, sua meta é: “Tirar essas crianças da rua e trazer para treinar comigo. Aqui no bairro os problemas sociais afetam todos, principalmente os jovens. Já tive muitos alunos envolvidos com o crime, quem continuou comigo conseguiu ser alguém, mas quem não me ouviu não existe mais”, lamenta Carlinhos, que tinha 35 alunos e, agora apenas 12. O mestre uma vez por mês visita as escolas de seus alunos para ver o desempenho deles, e garante que tem um método de incentivo para seus alunos. “Todo final de ano quem for bem na escola ganha um troféu para simbolizar uma vitória, para quem não vai bem tem que se esforçar dobrado nos treinos para compensar”, afirma ele.

A estudante Tatiana Santos Silva, 16 , pratica capoeira há três anos e confessa que passou por momentos difíceis na sua vida, chegando a ficar um ano afastada do esporte. “No ano passado, enfrentei problemas por causa de más companhias, me envolvi com coisas que não eram boas para mim, todos diziam que capoeira não prestava, que eu não ia para lugar algum com isso”, revela a estudante. Hoje, ela agradece ao Mestre, pois todos os dias a chamava para treinar, dava conselhos e abriu os seus olhos para outra vida. “Depois que voltei para a capoeira vejo a vida de uma outra forma. Minha vida melhorou muito com relação a minha família, melhorei meu desempenho na escola, meu objetivo é terminar minhas graduações na capoeira, concluir meus estudos, pois pretendo cursar uma faculdade de direito”, diz Tatiana.

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Ocupar o tempo vago dos jovens é muito importante, pois com a deficiência do sistema público de educação eles ficam sem atividades produtivas, e passam mais tempo nas ruas, correndo riscos. O estudante e capoeirista Edifranklin Santos Araújo, 10 anos, é praticante há um ano. Ele diz que antes de começar a treinar ficava na rua sem fazer nada, era mal visto na comunidade pois era bastante traquino. “Eu ficava na rua jogando pedra na casa dos outros, não era um bom aluno. Depois de começar a jogar capoeira eu só tenho tempo para treinar e ir para a escola, não fico mais na rua sem fazer nada”, comenta o capoeirista. O estudante admite que não recebe o apoio total da sua família. O pai dele, por exemplo, acha que a capoeira é para jovens sem futuro e não o incentiva, porém sua mãe dá todo o apoio que ele precisa. “O Mestre Carlinhos é como se fosse um pai para mim, ele me ensina a jogar capoeira, me dá atenção e conselhos que só fazem melhorar minha vida”, fala emocionado Edifranklin.

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Formando cidadãos
“Com 10 anos eu vendia picolé, sempre tive uma meta na minha vida. Se hoje eu sou bom no que faço é por causa dessa disciplina que a capoeira exige. Carlinhos já me chamou para mudar de cordão e ser contramestre, mas não me acho preparado ainda”, admite o eletricista José Raimundo Santos, 30 anos, que começou através de um amigo que o levou para uma roda de capoeira, desde então nunca parou. Raimundo diz que a capoeira trouxe muita disciplina para sua vida e comenta que para ser mestre tem que ter muita responsabilidade, pois numa roda de capoeira, além de se aprender o esporte, o aluno aprende a ser cidadão também. “Carlinhos é tudo dentro das aulas, ele é pai, irmão, professor e amigo, ele nasceu pra isso”, avalia Raimundo.

A capoeirista Rosangela da Silva Souza, 23 anos, lembra da sua dificuldade ao começar na capoeira. “Ninguém me apoiava, todos diziam que capoeira era um esporte para homens, existia muito preconceito com as mulheres praticantes do esporte, nem minha família me apoiou. Hoje não paro de treinar nunca mais”, diz Rosangela. Ela ainda acrescenta que diminui o preconceito em relação a questões raciais e fala que o importante é praticar o esporte com pessoas diferentes, independente de cor ou classe social. E elogia o trabalho do Mestre: “O trabalho que Carlinhos faz aqui, eu não vejo em lugar nenhum, ele ajuda todos nós e não cobra nada. Carlinhos é especial”.

Superação 
Com seis hérnias de disco (lesão na coluna que deixa o paciente limitado a alguns movimentos), o mestre de capoeira Carlinhos tem muitas dificuldades para passar os seus conhecimentos. Mesmo fazendo fisioterapia três vezes por semana, há dias em que a dor é insuportável. Ainda assim ele comparece à Sede para passar instruções ao professor substituto. “Eu gosto de ficar aqui sentado, vendo meus alunos aprenderem capoeira, chamo a atenção de um, dou instruções a outro, mas eu tenho que vir aqui, ou em não durmo á noite”, declara Carlinhos. O mestre e pintor afirma que apesar das dificuldades, tanto de saúde como financeira, é muito recompensador dar aulas três vezes por semana, e acha que ainda faz muito pouco pelos jovens do bairro. “Eu sei que posso fazer ainda mais. Hoje as mães dos meus alunos me agradecem por seus filhos terem melhorado na escola, e agora eles tem um sentido na vida. Eu sou muito feliz no que eu faço, me sinto realizado e não troco isso por nada no mundo”, finaliza Mestre Carlinhos.
(setembro de 2007)

 

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