Vila 2 de Julho: passado e presente

Posted on 03/10/2007 por

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por Antônio de Andrade*
Colaboradora: Alba Liberato*

Para conhecer a história da Vila 2 de Julho, é imprescindível situá-la no contexto histórico e social da Cidade de Salvador dos últimos 60 anos. Dentro desse contexto, tudo começou quando em 1944 se construía na Bahia a primeira estrada pavimentada com asfalto, material espetacular que os americanos nos enviavam para substituir o paralelepípedo, que seria em breve superado.
Ali nascia a Estrada Velha do Aeroporto – EVA -, que serviria de via direta para uso militar entre o centro da cidade e o aeroporto. Assim se desbravava uma região cujos sítios e fazendas formavam o cinturão verde da cidade do Salvador. Logo depois, a Fazenda Mocambo – com histórico de refúgio de negros – era loteada por Dr. Jorge Aguiar, morador da Rua Mocambo até os dias de hoje, homem que desenvolveu inúmeras atividades produtivas no sítio, tendo sido o primeiro e maior produtor de rosas da Bahia.

Durante muito tempo, Pau da Lima constituiu o maior adensamento populacional ao longo da EVA. Tempos depois, Nova Brasília atraía agricultores do interior, tornando-se um núcleo de pessoas habilitadas na arte de plantar e cuidar de gado. Além dessas habilidades, muitas das mulheres ali residentes ganhavam seu sustento nas atividades de parteiras, rezadeiras e catadoras de folhas medicinais para a venda na Feira de São Joaquim.

Os novos sítios possuíam extensas áreas, comprados por pessoas que já buscavam o ar puríssimo da região mais alta de Salvador, e tinham o sonho de cultivar pomares e hortas regadas pela água farta dos vales e rios, hoje nos limites da Vila 2 de Julho. Fazendas de gado resistiram ainda por muito tempo, e esse conjunto de atividades do campo garantiram longo período de preservação ambiental. Moradores da Rua Mocambo analisavam suas fontes e cisternas periodicamente para constatar a pureza dos minadouros que nasciam das pedreiras abundantes no local e abasteciam a cidade em expansão.

Até final da década de 90, a Rua Mocambo constou de sítios de moradores que tinham planejado uma vida mais tranqüila para sua família. Naquela época, valores humanos como o cooperativismo e o associativismo ajudavam na interação entre as pessoas da redondeza, havendo troca intensa de serviços entre vizinhos de diversas classes sociais.

Esse cenário bucólico começou a mudar na época em que as encostas de outras partes da Cidade de Salvador, instáveis pelo avanço das construções precárias, cediam à menor quantidade de chuva. Sem opção, aquelas famílias eram alocadas nesta região, quando alguns povoados foram levantados da noite para o dia. Assim nasceram Novo Marotinho e Jaguaripe. O bairro Vila 2 de Julho nasce como loteamento, com terrenos adquiridos por pessoas que valorizavam a localização, já com Nova Brasília densamente povoada.

Atualmente, com a expansão imobiliária na Estrada Velha do Aeroporto, o cenário da natureza exuberante de outrora começa a tomar nova forma. Na área que circunscreve o bairro Vila 2 de Julho, são inúmeros os conjuntos habitacionais, financiados pela Caixa Econômica Federal, construídos sem a menor atenção às leis de proteção ambiental. Árvores centenárias estão tombando aos empurrões dos tratores, e o que flui em nossos rios – Mocambo e Trobogy – não é mais a água límpida de um passado recente, e sim um líquido caudaloso proveniente dos esgotos tratados anacrônica e insuficientemente, gerados pelos conjuntos de prédios.

É contraditório um órgão oficial agir de tal maneira quando existe uma ordem mundial em favor da salvação do planeta, e quando ele próprio, a Caixa, imprime e distribui o Estatuto que rege o novo ordenamento urbano conforme as leis de preservação ambiental. Em qual das atitudes se coloca os princípios da instituição pública, já que na teoria diz e professa uma coisa, e na prática faz repetidamente outra inteiramente diversa?

O aquecimento global tornou-se uma realidade, e cada organização, cada habitante da terra tem o dever de contribuir para a continuidade da espécie humana, através da preservação dos recursos naturais. Devemos lembrar que assim como a Amazônia é considerada o pulmão do mundo, o pouco que resta de Mata Atlântica ao longo da Avenida Paralela e da Estrada Velha do Aeroporto tem a função de equilibrar as condições climáticas da nossa cidade.

Até quando nós, moradores antigos e novos do bairro Vila 2 de Julho e adjacências, da Estrada Velha do Aeroporto e comunidades vizinhas, assistiremos a lenta degradação da qualidade de vida na região, sem apontar a ocupação irresponsável por parte de órgãos que deviam exatamente despertar e educar a população para preservar o que resta de vida natural na região?

*Licenciado em Letras pela Universidade Federal da Bahia
Vice-presidente da AMOVILA – Associação de Moradores Vila Mocambo
Morador da Vila 2 de Julho há 13 anos.

*Alba Liberato, moradora do bairro há quase quarenta anos forneceu as informações históricas que serviram de base para o texto.

(setembro de 2007)

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