“O grande lance do projeto é tornar sonhos realidade” – Entrevista com Regina Lovatti

Posted on 03/10/2007 por

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por Ágda Helena
[agda_helena@hotmail.com]
Renata Abrão
[renaty_85@hotmail.com]

Fotos: Ágda Helena

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 Moradoras da Vila Dois de Julho têm agora a oportunidade de realizar seus sonhos, melhorar sua qualificação profissional e escolaridade. Para as mulheres de baixo poder aquisitivo que não tem emprego formal (carteira assinada) foi criado o Projeto Mulheres Mil que vai mudar a cara da comunidade, nos próximos quatro anos. Existem 13 subprojetos espalhados em vários estados das regiões Norte e Nordeste, todos com a participação do Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica).  Um deles é o subprojeto “Mulheres: Um Tour em novos horizontes”, que será realizado no entorno da Estrada Velha do Aeroporto, em Salvador. O objetivo do projeto é, nos próximos meses, oferecer escolaridade e qualificação profissional às mulheres e inseri-las no mercado de trabalho. Inicialmente, 15 mulheres serão atendidas. A intenção é capacitar 120 até o final do projeto. O Mulheres Mil foi criado através de uma parceria firmada pela Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC/MEC), a Association of Canadian Communit Colleges (ACCC), a Agência Canadense de Cooperação (ABC) e a Rede das Escolas Federais de Educação Tecnológica do Norte e Nordeste (REDENET). Gerente do subprojeto, Regina Cele Cotta Lovatti é professora de informática básica no Cefet e moradora da Comunidade Vila Dois de Julho. Ela explica mais sobre o Projeto Mulheres Mil em uma entrevista exclusiva para o Fala Comunidade.

Fala Comunidade – Como surgiu a idéia do projeto?
Regina Lovatti – O projeto surgiu através de um Edital dos Colleges canadenses que enviaram propostas para a Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC/MEC) pedindo projetos que envolvessem a melhoria da qualificação profissional e a escolaridade das mulheres. Todos os Cefet’s do norte e nordeste enviaram planos, desses, 13 foram aprovados. A SETEC decidiu que o projeto tinha que ser mais abrangente, poderia dar uma resposta muito maior a comunidade. Haverá reuniões periódicas com os 13 projetos, uma em cada capital do norte-nordeste para mostrar como está o andamento.

FC
– Qual o objetivo do projeto?
RL – Melhorar a qualificação profissional e a escolaridade das mulheres. O grande lance do projeto é tornar sonhos realidade. A novidade é a metodologia aplicada: a ARAP (Avaliação e Reconhecimento da Aprendizagem Prévia). Eu não conhecia essa metodologia, mas cada dia que passa ela me encanta ainda mais. Fui treinada para aprender e repassar esse procedimento para os demais integrantes da equipe. Nessa metodologia fazemos uma retrospectiva de tudo que a mulher já fez na vida, fazemos um mapa para conseguir resgatar todos os seus conhecimentos. Juntamente com a mulher saber o que ela quer fazer da vida, usando ou não o que ela já aprendeu. Cada mulher vai ter um itinerário informativo diferente. De acordo de onde ela está à onde ela quer chegar, cada uma vai ter seu próprio caminho. Por isso, a necessidade de um acompanhamento psicológico.

FC
– Quais são os colaboradores do Projeto e como eles contribuem?
RL – Os Colleges canadenses com o custo para a capacitação das mulheres. O governo brasileiro é o maior colaborador, vai ficar com o montante do custo, com toda a mão de obra e infra-estrutura.  Estamos tentando fechar algumas parcerias com Ong’s, que podem ajudar com treinamento, assessoria, estágios, bolsas, recurso financeiro. E também firmar alguns convênios com instituições canadenses para que elas banquem as bolsas. Nós queremos parceiros que tenham interesse naquele profissional que está sendo formado.

FC
– Por que foram escolhidas as comunidades em torno da Estrada Velha do Aeroporto, em especial a Vila Dois de Julho?
RL – Além da necessidade da comunidade, é um lugar que não é tão violento. O que nos dá condições de acesso para realização do projeto e também facilita a participação dos alunos do Cefet-Ba, que tem uma faixa etária entre 14 e 15 anos.

FC
– Quem são as mulheres que podem participar do Projeto e como elas podem chegar até ele?
RL – Só participam mulheres. A primeira exigência dos Colleges canadenses é que elas não tenham emprego formal (carteira assinada) e sejam de baixa renda. Nós temos dois escritórios de acesso: um fica no Cefet-Ba para a parte administrativa e outro na Igreja Batista BETESDA localizada na própria comunidade, onde serão realizados os cursos.

FC
– Como esse projeto é divulgado?
RL – Na página do Cefet-Ba na internet tem todas as informações sobre o projeto e nacionalmente pela assessoria de comunicação da SETEC. Em João Pessoa, quando houve a reunião, teve cobertura. A princípio não procuramos divulgar muito porque não temos resultados e nem definimos as mulheres. Não sabemos o que vamos encontrar, ainda está muito prematuro para divulgar. Na comunidade mais de 300 casas foram visitadas pelos alunos, professores e funcionários do Cefet-Ba que convidaram todos para a apresentação do projeto que vai ocorrer no dia 22 de setembro. Convidamos os líderes comunitários e religiosos para convencerem os moradores para irem à reunião. Colocamos cartazes nos pontos e dentro dos ônibus e em pontos comerciais.

FC
– Quais foram as dificuldades encontradas?
RL – Eu estou surpresa. A comunidade e as pessoas que nós apresentamos o projeto receberam muito bem. Eu acho que o grande problema é o tempo. Nós temos algumas etapas e temos pouco tempo para atingir esses objetivos trimestrais, isso preocupa. A questão é a dúvida se as mulheres vão realmente comprar a idéia. A grande prova de fogo vai ser no dia 22, porque as apresentações já foram feitas dentro das escolas. Daqui a algum tempo pode haver problemas, mas até agora está sendo muito bem recebido.

FC
– Como esse Projeto pretende ajudar as mulheres?
RL – Além da melhora na qualificação profissional e a escolaridade, é a  questão do sonho. As mulheres estão tão desesperançosas, tão desacreditadas de tudo que nem sonham mais. Não tem coragem de dizer qual é o seu sonho, por isso a necessidade de um acompanhamento psicológico. É complicado ela descobrir o que realmente quer. O que ela nem ousa externar e nesse momento ela vai tirar isso, e o que vai surgir a gente não sabe. Temos que deixar bem claro o seguinte: a nossa obrigação não é empregar ninguém. Nós vamos buscar parceiros, pessoas que vão arcar com os custos delas de bolsa, transporte, para que elas consigam se manter. Se não aparece um bico, um emprego temporário e elas abandonam o projeto. O nosso compromisso com elas é na formação, a busca na inserção no mercado de trabalho são elas que vão ter que se mobilizar.  No primeiro ano farão parte do subprojeto 15 mulheres, nos anos seguintes 35 mulheres a cada ano. Em quatro anos vamos atender 120 mulheres. Nós vamos acompanhá-las mesmo depois desse período.

FC
– Qual a relação dos alunos do Cefet-Ba no Projeto?
RL – Eu achei interessante conjugar a matéria deles (Informática Básica) com os dados do questionário sócio-econômico, realizado na comunidade nos dias 27 e 29 de agosto, que vai auxiliar na escolha das mulheres para o projeto. Os dados poderiam ser fictícios, mas achei que seria benéfico para todos essa experiência.

FC
–Depois das visitas dos alunos e funcionários do Cefet-Ba, qual foi o resultado?
RL – Depois de uma conversa com os alunos sobre o que eles perceberam, algumas coisas me marcaram. Primeiro porque eu estou trabalhando isso para usar na disciplina (Informática Aplicada). A realidade desses alunos é muito diferente da realidade dessas pessoas. Eles contaram que viram muita pobreza, que tinha muita organização no bairro, na associação dos moradores. Alguns alunos, que eram meio desligados, ficaram muito atentos. Queriam contar as suas experiências e ouvir às experiências dos outros. Uma grande preocupação foi com a segurança, mas as pessoas que vieram para cá acharam tranqüilo, muito parecido com o interior.

FC
– Quais foram as experiências mais interessantes para esses alunos?
RL –Uma coisa chamou à atenção, em todas as casas tinham televisão, eles não imaginavam que, com uma situação tão difícil, eles poderiam ter televisão. Uma aluna, ao perguntar se tinha tv em uma casa, responderam: ‘Pode faltar tudo, só não pode faltar televisão, para pobre é a única diversão que tem’. Um aluno, que era bem disperso, observou que as crianças sabiam responder sobre a renda dos pais, sobre tudo. Como a dificuldade é muito grande eles vivenciam tudo, ficam maduros logo cedo. Ele falava ‘crianças muito menores que eu sabiam muito mais’.  Um aluno disse que, o que mais chamou a atenção dele, foi uma casa onde só tinham crianças, nenhum adulto olhando elas. Isso acontece, inclusive as crianças mais velhas tomam conta das mais novas. Uma aluna disse que, quando entravam aquelas pessoas nos ônibus pedindo, ela sempre virava para o lado, depois que ela passou aqui e viu essa realidade, começou a olhar para essas pessoas.

PERFIL

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Gerente do Projeto Mulheres Mil que será realizado na Vila Dois de Julho, a capixaba Regina Cele Cotta Lovatti, de 45 anos, é formada em Nutrição pela Universidade Federal de Outro Preto. Já está no Cefet-Ba (Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia) há oito anos e atualmente é professora de Informática Básica no curso técnico na área de turismo. Adora fazer projetos e colocá-los em prática. Já fez alguns trabalhos em comunidades carentes, como Valéria em parceria com a Ong Estrela da Paz, direcionado ao público jovem.

(setembro de 2007)

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