No Jardim, a esperança vem do Rap

Posted on 20/09/2007 por

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por Alex Jordan

Ansiosos e gesticulando muito ao falar, os jovens do grupo Zumbido Negro soltaram o verbo para o Fala Comunidade. Com o vocabulário cheio de gírias baianas como “Véio” e “Rei”, eles conversaram sobre as dificuldades sofridas para continuar com o grupo e se emocionaram ao contar um fato que ocorreu em Itapuã. Antes de iniciar a entrevista, fizeram questão de cantar duas músicas para que pudessem entrar no clima.

Cansados de presenciar as injustiças cometidas em seu bairro os quatro jovens moradores do Jardim Nova Esperança, Anderson José de Jesus dos Santos (MC Corvo), Antônio Fábio Cardoso Morais (DJ Ogan), Izaque dos Santos Ferreira (MC Mike) e Israel dos Santos operador de som, resolveram se juntar e montar uma banda de Rap, nascia assim o Zumbido Negro. Com quase três anos de formação, o grupo já se apresentou em vários locais da capital baiana e canta em suas músicas as dificuldades vividas por eles e por outros milhões de nordestinos.

Os temas de suas letras são conhecidos por quem mora em bairros pobres, como exclusão por parte do governo, discriminação e violência policial, amor e até a degradação do meio ambiente, porém o grande diferencial está na maneira de se cantar o Rap, priorizando a identidade baiana. “A gente é totalmente soteropolitano, bem baianizado, sotaque apimentado. Se é bom para nós é bom para nós, não precisa ser bom para outros rappers, o nosso sotaque é esse”, afirma Corvo. O som da Zumbido é bem melódico, com a presença de duas vozes. O MC Mike na primeira, conduz a música de forma lenta, onde é possível mergulhar na realidade cantada por ele. Já MC Corvo narra de forma rápida, passando a emoção e equilibrando a canção além de efeitos vocais na base pouco comum nos raps nacionais.

Em Salvador não é possível viver apenas do rap. Apesar de algumas ONG’s e outras produções independentes colaborarem com a cena, a ausência de rádios que toquem rap baiano acentua a dificuldade deste que é o estilo musical que tem menos espaço na capital baiana, como afirma MC Mike: “A pior dificuldade é essa daqui, a galera fala bastante do rap de São Paulo, mas é outra coisa lá. Os caras têm mais apoio, tanto da população, dos meios de comunicação e dos empresários”. Devido a esta ausência de incentivo, cada integrante do grupo tem trabalhos independentes da banda, e por diversas vezes tiram dinheiro do próprio bolso pelo prazer de tocar.

Se engana quem pensa que  a banda se preocupa apenas com rimas. As suas influências não ficam restritas a outros grupos de rap, e sim nos mais variados estilos musicais como MPB, Samba e Reggae. A origem do nome é curiosa. A banda acredita que por meio do zumbido, assim como uma mosca, incomoda o sono das autoridades e desta forma são capazes de mudar a sua realidade militando sempre como afirma MC Corvo. DJ Ogan foi o último a entrar na banda. Após receber o convite, ele começou a ensaiar para poder ser o quarto membro da banda: “Foi um processo lento, mas objetivo. Eu quis. quando eu quero uma coisa eu quero, procurei agir para poder acontecer”, diz Fábio.

rap-j-esp-alex3.jpgSegundo MC Mike, o fato de morar em um bairro de pouca estrutura não é o principal ingrediente para um relato real. Ele acredita que o principal fator para isso, é a sua sensibilidade em enxergar a realidade: “Mesmo eu sobrevoando, eu conseguiria ver mendigos na sinaleira, conseguiria ver pessoas roubando para poder sobreviver, pessoas passando fome. Eu posso fechar meus olhos e achar que eu estou morando no paraíso mesmo morando na periferia”, afirma. As letras que são escritas por MC Corvo e MC Mike têm como objetivo resgatar as pessoas que fazem parte do crime e por meio dos seus relatos, informar a sociedade como é a rotina de indivíduos em processo de exclusão social.        

Na pele
Em um dos sons (como preferem chamar os seus shows) em Itapuã ao descer do ônibus, o grupo foi abordado por uma viatura da polícia de choque. Depois da revista, o sargento indagou onde eles moravam e ao obter a resposta perguntou o que ele iria fazer ali. O fato rendeu uma música como se fosse um filme “por causa de um gambé não posso nem sair, me dá um baculejo, me chama de ladrão, me da tapa na cara, me joga até no chão”.   

rap-j-esp-alex.jpgComemoração
Em quase três anos de formação, o grupo comemora o aprendizado, a força adquirida com as dificuldades que sempre os fazem seguir em frente, e o respeito que sempre tiveram a outras vertentes musicais. Agindo desta maneira, eles conquistam público não apenas no rap, mas também do axé, pagode e outros estilos, Fábio ainda ressalta o respeito conquistado no bairro por meio da banda após um show.

Apesar da força de vontade da banda, eles contam com apoio dos familiares, amigos e dos fãs das bandas que comparecem e pedem as músicas da banda na rádio comunitária, e sempre vão aos sons da banda que se expandiu no cenário underground de Salvador.

(setembro de 2007)

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Posted in: CULTURA