Escola aberta aos sábados renova auto-estima em Novo Marotinho

Posted on 20/09/2007 por

8


fotos-fala-comunidade-novo-marotinho-002.jpg

por Murilo Alves
Colaboração: Pérola Santos

“Eduquem os meninos e não será preciso castigar os homens”. A frase  do matemático e filósofo grego Pitágoras (571 a.C – 475 a.C) parece ganhar forma em uma das localidades mais carentes de Salvador, a de Novo Marotinho, onde o Programa Sócio-Educacional Escola Aberta beneficia dezenas de estudantes por meio de oficinas criadas com o objetivo de acrescentar conhecimentos diversos aos moradores locais, além de prepará-los para o mercado de trabalho. O bairro fica no entorno da Avenida Aliomar Baleeiro (Estrada Velha do Aeroporto), à altura do Km cinco.

Criado em parceria com os governos federal e municipal, além das Organizações das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) o Programa  chegou a Escola Municipal Novo Marotinho no dia 17 de setembro de 2005. Desde então, os alunos somente acostumados às aulas comuns e por que não dizer maçantes assistidas no dia a dia do colégio  passaram a ter os dias do final de semana para aprenderem novos conhecimentos por meio de oficinas que visam preparar os jovens e os adultos para o mercado de trabalho. Atualmente, ocorrem os cursos de Informática, Jardinagem, Recreação e Artes, Artesanato e Dança, mas apenas aos sábados, das 8h às 17h, pois as verbas que mantinham o Programa também aos domingos foram cortadas.

fotos-fala-comunidade-novo-marotinho-004.jpgHistoricamente desprestigiada pelo poder público voltado para a área da educação, a escola passou a receber os recursos do Fundo do Programa Dinheiro Direto nas Escolas (PDDE), posteriormente repassado ao Conselho Escolar que tem a responsabilidade de direcionar as verbas do Programa para o pagamento das bolsas-auxílio dos professores de cada oficina e despesas como a compra das merendas. Segundo a Coordenadora do projeto na Escola de Novo Marotinho, Doralice Gomes dos Santos, conhecida como Dorinha, essa verba é proporcional a quantidade de alunos que a escola possui. Ela se entusiasma ao falar dos efeitos das oficinas nos estudantes: “É incrível, quando chega o horário do fim das oficinas, lá por 17h, eles não querem ir embora”.

Dançarino Mirim
Arrocha, Calipso e Pagode. Para o estudante Dêivide Vicente Ribeiro, 10 anos, todos os estilos e ritmos musicais são fáceis de ser executados nos movimentos de sua dança. Ele é o único aluno homem dessa oficina repleta de meninas e acaba tendo que ensaiar os passes de um bailado chamado “personalidade” para se esquivar do preconceito dos outros garotos da escola: “Eles ficam falando que é coisa de bicha, de veado, mas eu não ligo, digo que eles deveriam dançar também como eu, que quero ser um dançarino profissional”, relata. Já a dona de casa Lucineide Vicente, 30 anos, mãe de Dêivide é todo orgulho ao falar do talento do filho: “Ele foi contemplado para se apresentar daqui a uns dias no Espaço Axé, estou muito feliz”, comenta.

Outra oficina bastante atrativa do Escola Aberta em Novo Marotinho é a de Recreação efotos-fala-comunidade-novo-marotinho-005.jpg Artes, ministrada pela professora Rita Barreto, 38 anos. Crianças de diferentes idades aprendem a combinar cores distintas trabalhadas em telas e trabalhos em papel, além de assistirem a filmes didáticos como “A Era do Gelo 1 e 2”, que falam sobre o problema do aquecimento global e “Crianças Invisíveis”, um retrato da pobreza na infância: “A realidade aqui era diferente, as crianças falavam alto, brigavam bastante, hoje já pedem ‘por favor, pró’. Valores como o de amor ao próximo e respeito aos mais velhos são praticados”, enfatiza, Rita.

Já a oficina de Informática é formada por alunos, crianças, jovens e adultos e conta com a instrução de William dos Santos, 22 anos. O curso busca preparar para o mercado de trabalho moradores e alunos sem condições de pagar para ter aulas de informática, como é o caso da autônoma Gildélia Santos, 53 anos, marinheira de primeira viagem na chamada “Idade Mídia”: “Eu não tenho nem palavras para falar da importância desse projeto. A comunidade não tem condições de ter computador em casa, aqui ela fica ocupada”, afirma. O professor William ressalta o caráter profissionalizante do trabalho desenvolvido: “O aluno só sai com a emissão do certificado, que ocorre após de uma avaliação elaborada por mim”.

De acordo com o subsecretário da Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SMEC), Cláudio Souza da Silva, atualmente 17 escolas de Salvador são contempladas pelo Programa Escola Aberta, que é aprovado segundo o número proporcional de alunos matriculados em cada escola da rede pública municipal e regiões periféricas da capital. “A Secretaria deve se reunir em setembro para discutir as políticas públicas voltadas para a educação nas comunidades do entorno da Estrada Velha do Aeroporto”, promete. Segundo Cláudio Souza, mais de 100 estudantes são contemplados somente em Novo Marotinho e milhares são beneficiados em toda a capital. No entanto, a SMEC não é clara ao confirmar se pode haver uma ampliação do projeto: “Estamos estudando essa possibilidade, mas não depende só da gente. Há também a dependência do dinheiro do Governo Federal e da União”, afirmou.

Para participar do projeto, as escolas das redes municipais, estaduais e privadas de ensino especial devem estar localizadas em regiões metropolitanas com alto índice de vulnerabilidade social, selecionadas pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (Secad/Mec). Segundo dados do site oficial do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), os recursos repassados devem ser executados de modo a garantir o funcionamento das escolas nos finais de semana pelo período de dez meses, a contar da data do recebimento do repasse. Atualmente na Bahia, 80.964 alunos são beneficiados pelo projeto, sendo mais de 1,5 milhões investidos pelo Governo Federal no Estado.

O período de duração das oficinas é de três meses, com possibilidade de renovação para aqueles que não conseguiram atingir os níveis mínimos de exigência dos respectivos cursos. As novas inscrições podem ser feitas na escola até a primeira semana de setembro, sendo que a própria comunidade de Novo Marotinho é quem vai decidir quais serão as próximas oficinas do Programa Escola Aberta no local por meio de votação. A urna fica na entrada da Escola Municipal e as novas áreas de conhecimento propostas incluem Manutenção Predial, Bordado em Sandálias, Crochê, entre outras. Com o projeto, a auto-estima dos moradores locais cresce, e aquele velho, mas ainda coerente pensamento do filósofo grego ganha um sentido prático.

Mais informações pelo telefone 3611-7820.
Blog: escolanovomarotinho. blogspot.com
E-mail: esc-nmarotinho@salvador.ba.gov.br

(setembro de 2007)

 

fotos-fala-comunidade-novo-marotinho-001.jpg

Anúncios
Posted in: EDUCAÇÃO