Caminhadas forçadas

Posted on 20/09/2007 por

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por João Dell‘Aglio

Os profissionais de saúde garantem que caminhar pelo menos três vezes por semana, durante 40 minutos, faz bem para o coração. Abaixa os níveis de colesterol e aumenta a qualidade de vida de quem pratica esse exercício. Parece que as comunidades no entorno da Avenida Paralela estão, mesmo que de maneira forçada, levando o assunto bem a sério, quase sempre exagerando na dose. Existem três motivos principais para essa mudança de hábito na região: a violência, a falta de dinheiro e ônibus lotados.

Constantes assaltos aos ônibus estão obrigando as pessoas a deixar de utilizar os serviços do transporte coletivo para praticar longas caminhadas. Essa mudança é verificada principalmente na Estrada Velha do Aeroporto (E.V.A), onde a ação dos assaltantes é mais intensa. A estrada, construída em 1945, é muito estreita. O elevado número de buracos e as curvas perigosas favorecem os assaltos devido à baixa velocidade com que os carros precisam trafegar. No trecho entre Nova Brasília e Cajazeiras, apesar de apresentar um bonito visual, as matas fechadas são utilizadas como local de “desova” de corpos por toda espécie de criminosos,o que torna o ambiente ainda mais perigoso.caminhada.jpg
Silvaney Chagas Ribeiro, 17, voluntário do Conselho dos Moradores de Jaguaripe II, diz que muitos dos seus amigos estão caminhando até a Vila Dois de Julho, um percurso com cerca de cinco  quilômetros, para, de lá, pegarem o ônibus que os levarão aos seus locais de trabalho. “Quando escurece, eles vão em grupos de seis ou sete pessoas, pra diminuir o risco de serem assaltados no caminho”. O mesmo acontece com moradores do Jardim Nova Esperança, que estão sendo obrigados a caminhar, sempre em grupos, da E.V.A. até o seu bairro.

MAIS PROBLEMAS
A lotação esgotada também contribui para a mudança de comportamento das pessoas que moram na região. “Precisamos também de um fim de linha no Jardim Nova Esperança, porque os ônibus só vivem lotados, impossível de entrar, quando vêm de Nova Brasília e Cajazeiras. E muitos esses carros sequer entram em nosso bairro”, reclama o vice-presidente da Associação Cultural e Esportiva Jardim Nova Esperança, Antônio José dos Santos, 35, mais conhecido como “Boronga”.

Os moradores do local bloquearam, no dia 5 de maio pela manhã, a E.V.A., em frente aocaminhada2.jpg condomínio Girassol, reivindicando melhores condições para o bairro e a ampliação da oferta de transporte coletivo. Eles querem mais linhas de ônibus, principalmente uma que faça o trajeto Jardim Nova Esperança/Barra.

SEM GRANA
O problema financeiro é outro fator que leva a população a mudar seus hábitos. Pesquisa feita pelo Ministério das Cidades em parceria com a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), divulgada em março, relativa ao ano de 2003, constata que 35% da população brasileira costuma andar a pé. Segundo a pesquisa, vários foram os motivos que influenciaram esse tipo de comportamento, entre eles, o alto preço das tarifas praticadas pelo transporte coletivo, que chega a comprometer 27% do salário mínimo. Quem mora no Trobogy e trabalha no Rio Vermelho, por exemplo, terá que desembolsar mensalmente R$ 66.

Na Vila Dois de Julho, o que mais contribui para que as pessoas deixem de usar o transporte coletivo é justamente o alto preço das tarifas. O presidente da Associação de Moradores, Moisés de Jesus Carvalho, 53, diz que o problema da violência não tem interferido na mudança de hábitos na localidade. “O que acontece é que os nossos vizinhos caminham daqui até a Avenida Paralela, um percurso de quatro quilômetros, para economizar o dinheirinho, que, no final do mês, faz a diferença”.

“Quem saiu ganhando nessa história toda, aqui na Vila, fui eu. O médico me proibiu de fazer grandes esforços. Ainda bem que tenho o passe do idoso e não preciso pagar nada”, comemora a viúva Catarina de Sena Magalhães, 71, que usa um marca passo e precisa se submeter a sessões de fisioterapia em dias alternados, no Vale de Nazaré. “Saio de casa bem cedinho e consigo a senha 16 ou 17 lá no ambulatório”, conclui sorridente.

TIRE SUAS DÚVIDAS
Salvador possui 2.210 veículos com bancos reservados para idosos, gestantes e pessoas com deficiência, além de 104 veículos com elevadores. Maiores de 65 anos têm acesso gratuito apresentando documento oficial de identificação.

De graça
Portadores de deficiências devem se dirigir à instituição responsável pela avaliação e solicitar o seu cadastro junto à CODEF– Coordenadoria de Apoio aos Portadores de Deficiência.

Mais beneficiários
Carteiros; Comissários de Menores;
Conselheiros Tutelares; Crianças (até cinco anos);
Fiscais DRT; Fiscais e Agentes de Transporte da STP;
Funcionários das Empresas de Ônibus;
Oficiais da Justiça do Trabalho, do Estado e da União;
Policiais Civis e Militares.

(julho de 2005)

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