Um rap para a felicidade

Posted on 17/09/2007 por

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por Luciana Guimarães

Com um rap de autoria própria na ponta da língua, Neguinho começa mais um dia de trabalho. Entre músicas e passos de dança improvisados, ele vai se alternando entre a lavagem de carros e limpeza de prédios. Cantando para espantar os males e dançando para não demonstrar cansaço, o rapaz trabalha dia após dia com o mesmo entusiasmo. Debaixo de um sol escaldante, com a pele muito negra e o suor escorrendo pela testa, o ex-morador do bairro de Canabrava conta que foi para o Vale dos Lagos trabalhar por que o lixão o incomodava muito e por não querer ser catador de lixo, como alguns moradores do bairro.

Edvaldo Marcelo é o “Neguinho”. Trabalhador nato, sem nunca ter tido a carteira assinada, está no condomínio há cerca de 22 anos. Sempre com um largo sorriso dando forma ao seu rosto, ele diz que acha “Neguinho” um nome carinhoso e que gosta da forma como os moradores do bairro lhe apelidaram. “Aqui me chamam de Neguinho, em Canabrava me chamam de Edvaldo, em Mussurunga, de Marcelo e no Exército, de Cruz”, detalha ele.

Aos 11 anos ele começou a freqüentar o condomínio Vale dos Lagos em busca de uma atividade. Iniciou com os pequenos serviços. Jogava um lixo fora para alguém, capinava algum canteiro, limpava algum bar para ganhar uns trocados e ajudar a mãe com o sustento dos irmãos. Neguinho conta que, hoje, dos nove irmãos, o quem tem uma melhor condição de vida é ele.

Com a ajuda de alguns moradores, foi acumulando mais serviços e fixou-se como lavador de carros. Apaixonado por bicicletas, começou a consertá-las fazendo favores para os outros. Depois começou a cobrar. Só que estas duas atividades lhe tomavam mais tempo e, segundo ele, o lucro era muito baixo. Conquistando a confiança dos moradores, ele conseguiu “pegar” algumas limpezas de prédio.

Nos carros, o seu trabalho consiste em lavar a parte externa, os pneus, aspirar a parte interna e dar o polimento para “ele ficar brilhando”. Cliente fixo de Neguinho, Manoel Santana diz confiar plenamente nos serviços do rapaz: “Para este aí eu entrego a chave do meu carro sem nenhum medo. Ele abre o carro, ouve som, limpa por dentro e fora e depois me dá um grito para avisar que terminou. Antes eu ainda conferia tudo, mas depois que ele virou mais adulto eu confio de olhos fechados”. Durante a semana, sua principal atividade é limpar alguns prédios. “Varro, lavo, passo pano e encero”, detalha ele.

Confiança
Com tanta confiança dos moradores e comerciantes locais, ele conta que já passou por algumas situações complicadas que o levaram a parar na 10ª Delegacia de Polícia, de Pau da Lima. Um colega pediu para ele ir buscar um carro para lavar. Sempre em busca de ganhar mais, não pensou duas vezes: parou o que estava fazendo, pegou a chave e foi buscar o carro. Segundo Neguinho, na realidade, o carro que o rapaz tinha pedido para ele lavar era roubado e os dois acabaram sendo presos. “Aí, sim, pude perceber o carinho do pessoal do Vale comigo. Várias pessoas ficaram ligando, foram lá me defender e explicar pro delegado que eu era trabalhador… Depois de apanhar muito, o elemento contou a verdade e aí me soltaram”, conta ele, orgulhoso.

Agradecendo a Deus pelo sucesso que conseguiu atingir na vida, ele conta com muita alegria que nunca vai esquecer o dia em que “andou de avião”. Uma moradora do condomínio, que estava para se mudar, convidou o rapaz para ser o caseiro em sua nova residência no bairro de Mussurunga. Depois de alguns dias, ela mandou que ele vestisse uma boa roupa para irem ao shopping. Nada de shopping. Foram ao aeroporto e viajaram para São Paulo. Um mês inteiro só de diversões para Neguinho, que na época deveria ter cerca de 19 anos. “Lá em São Paulo eu não fazia nada a não ser brincar, não tirava um copo daqui para ali… Curti bastante São Paulo, ela me levou nos brinquedos lá no Ibirapuera. Foi uma maravilha, uma coisa minha que eu nunca me esqueço”, relembra ele.

“Minha mãe e Deus”
Edvaldo Marcelo conta que a tal senhora queria levá-lo para morar com ela na capital paulista, mas sua mãe não aprovou a idéia. “Minha mãe falou que tinha 10 filhos, e que se ela quisesse levar qualquer um ela podia, menos eu”, lamenta o rapaz, explicando que obedeceu a ordem porque, para ele, Deus vem em primeiro lugar, mas em todos os outros só cabe sua mãe.

Sempre com o largo sorriso e mostrando a alva dentição, Neguinho não esconde a sua felicidade. “Sou muito feliz com a vida que eu levo. Não reclamo de nada dessa vida. Não me falta nada. Tudo que eu tenho eu pedi a Deus. Ele não diz que vai me dar não. Eu batalho atrás das coisas. Pensar que não, chega assim, nos meus pés, numa boa”, conclui o lavador.
(dezembro de 2004)

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