Sambão social

Posted on 17/09/2007 por

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O ensaio do grupo Bicho da Cana agita a comunidade de Canabrava

por Sara Cerqueira

Domingo é dia de descanso na maioria dos bairros de Salvador, mas não em Canabrava. A noite se aproxima e a comunidade se prepara para cair no samba. Meninas se perfumam, os homens se ajeitam e as crianças ficam agitadas. O destino é um só: ensaio do Bicho da Cana, na praça da Rua Gilberto Gil, às oito da noite. A cerveja já está gelada, o “churrasquinho de gato” já está no ponto. É hora do show. Uma Multidão é arrastada pela música contagiante do grupo.

O ritmo é o samba duro, estilo diferente do pagode. “O som das batidas leva todo mundo que está na praça, ninguém fica parado”, empolga-se o integrante do grupo, Derivaldo Matos, conhecido como Neném Calabar. Ao mesmo tempo, Neide Carmo da Silva, 49, explica: “Aqui o samba é a alegria do povo. O grupo canta chamando os que estão por perto para entrar na roda. Ninguém fica de fora, até as crianças se divertem”. Fã de carteirinha do Bicho da Cana, Neide freqüenta os ensaios desde a formação do grupo.

A história do grupo Bicho da Cana começou há 26 anos, quando a Associação Cultural Grupo União, no Engenho Velho de Brotas, criou o concurso de samba duro – grupo grande de samba, samba de arrastão. Diferente do samba de roda, pois não tem harmonia. É um estilo de samba de raiz que utiliza instrumentos como timbau, tamborim e marcação. Diferente do samba de roda, que mescla o samba duro com sons metálicos, como os da guitarra, do contra baixo e da bateria. 

Na ocasião, o presidente da associação, Jorjão Bafafé, 53, junto com os amantes da arte do samba, resolveu incentivar bandas formadas por jovens de comunidades periféricas. Segundo ele, através dos concursos realizados todos os anos, novas bandas foram surgindo, mas poucas permaneciam em destaque em suas  comunidades. “Só que a historia do Bicho da Cana foi diferente. Participaram do concurso e não esqueceram de onde vieram”, conta.

Começaram, então, os ensaios em Canabrava. A população compareceu em peso e os músicos perceberam que podiam fazer mais pelos que os acolheram e continuavam dando apoio significativo para a banda. “O importante para nós foi ter dado uma contrapartida, no caso o samba, para então se fazer um trabalho social com quem sempre nos apoiou”, afirma Calabar.

E foi pensando no trabalho comunitário que o Bicho da Cana se fortaleceu. O grupo resolveu unir a música ao exercício da cidadania. A atividade que desenvolvem com crianças a partir de nove anos, chamada “tá gostoso é o Bicho”, que consiste em oferecer oficinas de percussão, é um exemplo dessa proposta.

O Bicho da Cana tenta manter a banda e os projetos sociais, como as aulas de capoeira e de percussão, cobrando, em seus ensaios, 50 centavos das mulheres e dos homens 1 real. Quando há sobra de caixa, atende a outras necessidades comunitárias. Sem rede de esgoto e sem atendimento policial, Canabrava, com seus sete mil habitantes, ainda assim conta com uma comunidade forte, unida e organizada.

Neném Calabar conhece bem a realidade do bairro, mas não desanima. “A gente faz o que pode. Mesmo sem recursos suficientes nos viramos”, comenta. Seu amigo e um dos responsáveis pela ascensão do Bicho da Cana, Jorjão Bafafé, não mede palavras para tecer elogios aos músicos. “Eles entenderam o que era necessário naquela comunidade, que não era só de lazer que eles precisavam, por isso não acabaram, nem perderam seu público, como outras bandas de bairro”, enfatiza.
(junho de 2005)

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Posted in: CULTURA