Garimpeiros urbanos

Posted on 17/09/2007 por

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por Dulce Sampaio

O que sempre foi considerado lixo, hoje em dia pode dar lucro. Papel, papelão, latas de ferro ou de alumínio, frascos de vidros e todos os tipos de plásticos, descartados diariamente pela população, podem ter como destino a reciclagem e se transformar em renda familiar. Com a desativação do aterro sanitário de Canabrava, alguns catadores de lixo (badameiros) tiveram a oportunidade de participar de cooperativas de reciclagem, mas a maioria ainda luta pela sobrevivência de forma anônima, recolhendo lixo pelas ruas e comercializando a preços muito abaixo do mercado.

Em Salvador, centenas de desempregados, entre homens, mulheres e até crianças, têm como rotina de trabalho garimpar o lixo em busca de materiais que poderiam ser reutilizados. É uma atividade informal, pouco reconhecida e explorada por atravessadores (donos de depósitos). O preço oferecido por 1 kg de garrafas tipo Pet (por volta de 150 unidades) é de R$ 0,40, sendo que o valor deste material, ao ser vendido em maior quantidade para empresas especializadas, sobe para R$ 1,20. “Saio de manhã e não tenho hora pra chegar. Trabalho sozinho, pois neste meio tem muita disputa. Sei que pagam pela mercadoria menos da metade do preço, mas precisamos de dinheiro na mão pra comer”, declara Inácio Galdino, 55, catador há mais de 16 anos em Canabrava.

O fim do lixão de Canabrava, em 2002, com a criação do Parque Sócio Ambiental pela Prefeitura, trouxe mais saúde e lazer aos moradores das redondezas, mas também tempos difíceis para muitas famílias que dependiam do lixo para sobreviver. Com o sustento da comunidade ameaçado, alguns ex-badameiros se organizaram e formaram a Caec – Cooperativa de Catadores Agentes Ecológicos de Canabrava, em parceria com órgãos públicos, beneficiando parte da população. “Na toca havia pra mais de 2 mil pessoas trabalhando, mas no máximo 100 conseguiu entrar pra cooperativa, o resto do pessoal teve que ir pra rua se virar”, assegura Galdino.

Empurrando um carro de mão com estrutura improvisada, duas vezes maior que seu tamanho e abarrotado de papelão, Adenilson de Jesus, 33, morador de Novo Marotinho, não reclama do serviço pesado, e conta que pior mesmo é ficar desempregado. É um dos tantos catadores que aprendeu a trabalhar sem lugar definido em Salvador. “No lixão a concorrência era grande, havia até roubo de carga, mas sempre tinha caminhão chegando com mais material. Pelas ruas não dá pra ficar num lugar só, tem que circular pra conseguir juntar uma quantidade”, admite.

Nessa aventura de sol a sol, esses garimpeiros vão em busca do que há de mais precioso no lixo. Hoje em dia, a procura começa pela vizinhança onde moram, principalmente na área de condomínios residenciais, a mais cobiçada por catadores de todas as idades. Já outros preferem procurar resíduos em bairros distantes, de classes de maior poder aquisitivo, ou ainda nos subúrbios da cidade. “Moro em Nova Brasília, mas na orla o número de latinhas que consigo encontrar é muito maior. Outro lugar bom de trabalhar é na região da Calçada. Como não tenho como transportar meu material e na Cidade Baixa tem muita fábrica, negocio por lá mesmo”, revela Edson Costa, 38 anos.

Com o objetivo de melhorar as condições de vida de pessoas que dependem do lixo, moradores da comunidade de Jaguaripe II tiveram a idéia de montar mais uma cooperativa de reciclagem na região. O projeto está sendo elaborado e já foi discutido informalmente com representantes da Prefeitura, que vê com simpatia a iniciativa. A cooperativa, batizada de ReciclaEva (Cooperativa de Reciclagem da Estrada Velha do Aeroporto), será administrada pelos próprios moradores de forma descentralizada, e terá abrangência de Jaguaripe a Bosque Real. Pretende-se criar vários postos de coleta de material reciclável e um depósito geral onde haverá uma prensa, equipamento fundamental no processo.

De acordo com o presidente do Conselho de Moradores de Jaguaripe II, Josué dos Santos, a cooperativa funcionará como ponte entre os catadores de material reciclável e as empresas compradoras, para uma negociação mais justa. “Nossa intenção é oferecer oportunidade de emprego a um maior número de pessoas carentes em nossa comunidade, uma vez que as cooperativas que existem não comportam mais novos funcionários. Unidos e organizados, os catadores terão mais facilidade de firmar parcerias com os condomínios para a coleta do lixo, e poderão lutar por uma melhor remuneração e valorização de seu serviço”, afirma.

Josué acredita que uma cooperativa de reciclagem de lixo pode gerar uma sucessão de benefícios para a comunidade, e não só financeiros, mas, para tanto, diz que as idéias a respeito também terão que ser recicladas. “Às vezes ouço alguém dizer que não quer nem saber o que se passa lá fora, em seu bairro. Porém, tudo o que temos de melhor está em nosso bairro: nossa família, nossa casa, nossos amigos. E devemos cuidar disto. Separar do lixo o que não tem mais utilidade, como metais, vidros e plásticos, e entregar a um catador que recolhe e precisa, não custa nada. Vamos estar contribuindo para nosso bairro ficar mais limpo e fazendo um trabalho social, ajudando pessoas, que podem ser nossos vizinhos. A comunidade precisa ter consciência do quanto ela pode ajudar outras famílias desta forma”, avalia.
(junho de 2005)

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