Água no campinho

Posted on 17/09/2007 por

1


Apesar das más condições dos campos, o futebol de várzea ainda é a melhor opção para o lazer.

por Daiana Rodrigues e Renata Leite

Vila Dois de Julho, Jaguaripe II, Vila Mar e São Marcos têm algo em comum: o futebol de várzea. Nestes bairros, é possível acompanhar aos ‘babas’ toda semana, mas o ‘quente’ são os sábados e domingos.  O futebol é a única opção de lazer deles, e esta foi uma opinião unânime de todos os representantes comunitários. Como diria Seu Damião Ferreira, um dos oito dirigentes do Amigos Futebol Clube, time de Vila Dois de Julho, “No fim de semana, o entorno do campo é a maior festa, tem um pessoal que até coloca o isopor para ganhar dinheiro. Todo mundo vem para cá, mais de cem ou duzentas pessoas e nem tem arquibancada”. Apesar da alegria do futebol, os problemas são inúmeros, tanto com o campo, quanto em relação ao pouco investimento.

Em Dois de Julho, existem dois campos para treino do Amigos. Um dos campos fica no fim de linha do Trobogy. Terra batida, nenhuma marcação, traves sem rede, nenhum alambrado, sem arquibancadas, nem iluminação. Mesmo com todos os “defeitos”, este é o campo predileto, já que no outro é preciso o pagamento de uma taxa, já que ele se localiza num condomínio fechado.  Seu Moisés, técnico e fundador do Amigos, apontou que além do campo, o problema maior é com os jogadores, “a maioria é pai de família, aí fica difícil treinar todo mundo junto e sempre”, reclama. Maria da Piedade, 33, também uma das dirigentes, apontou o quanto é difícil gerenciar um time como o Amigos, já que pouco se investe de fato no futebol de várzea. “Aqui é a gente que paga tudo, é uma média de R$30, por jogo. Eu só faço isso porque sou apaixonada pelo esporte e porque aqui a gente não tem outro lazer”, afirma.

Um grande buraco íngreme, com cerca de dez metros, sem nenhuma escada ou caminho acimentado para que se chegue até o campo, é por esse caminho que os meninos seguem. As beiradas do buraco são tomadas pelo mato e lixo, que segundo Sivaldo Batista, 30, professor do Cristal, time de Jaguaripe II, é depositado ali por comerciantes locais e também por alguns moradores. “As pessoas jogam pedras lá embaixo, até mesmo vidro. A Limpurb veio aqui há três meses atrás, até cortaram a grama, sempre tem lixo nas beiradas. E o nosso campo é de verão; se chover, não tem jogo”, afirma. Lá iam dois meninos, um deles descalço, descendo como guerreiros para o grande embate, que é cada “baba”. Equilibravam-se como podiam, apoiavam as mãos no chão, mas pareciam que ao menor soprar do vento, sairiam “embolando” ravina abaixo, como alguns de seus colegas, como o César Galvão, 14, zagueiro, já o haviam feito. “Graças a Deus, e só a Deus mesmo, nunca tivemos nenhum acidente grave aqui”, diz Sivaldo. Para ser jogador, conforme disse Rafael Conceição, 13, meio-campo, Nova Brasília, “É preciso ter determinação para conseguir chegar lá”.

Em Vila Mar, independente das condições de campo e da idade dos jogadores, o futebol é bem acolhido pelos moradores. Na comunidade, existem dois times de jogadores veteranos, que é o Clube dos Trinta e Chuteira Cansada. Com 2 anos de formado, o Clube dos Trinta conta com 36 jogadores, sendo que todos acima dos 30 anos. No início tudo começou no improviso, sequer tinha nome. Segundo José Nogueira dos Santos, um dos jogadores, o baba acontecia no Largo de Vila Mar. “Quando o campo não mais proporcionou condições de jogo, passamos para uma área onde será construído um colégio, que fica na rua Direita de Vila Mar”, disse. Hoje o campo que eles disputam as partidas, sempre aos domingos das 5 às 8 horas, foi formado com ajuda de bingos. O campo fica no Lar Betânia, que cuida de alguns idosos.

Na comunidade de São Marcos, o campo de terreno “batido” também é muito bem aproveitado. No bairro há dois campos, que ficam um perto do outro, situados na Rua Djalma Sanches, próximo ao colégio Cleriston Andrade que está ao lado da Fundação Cidade Mãe. Segundo Josafá Assis de Jesus, diretor social da Associação de Moradores Beneficientes do Bairro de São Marcos, a diferença entre os campos está no tamanho e na organização. “As disputas com 11 jogadores na linha, acontece no campo maior, que é todo telado e com refletores para iluminar o campo durante as partidas. O menor é para o futebol society, são seis jogadores e um no gol”, disse. A partir de março, Josafá que também joga futebol, disse que vai lançar seu próprio time, que provavelmente vai se chamar Vasco. “Quem quiser ser um dos jogadores do Vasco, pode entrar em contato comigo pelo telefone: 3393-6892 ou na associação”, afirmou.

A Federação Baiana de Futebol, representada pelo diretor técnico, Wilson Pain, afirmou que não oferece ajuda a estes times, nem organiza seus campeonatos. “A gente só da mesmo os árbitros e os bandeirinhas”, diz Pain. Apesar disso, o senhor Wilson Pain garante “o futebol é de extrema importância nestas comunidades, porque muitas vezes é o único lazer da garotada e ajuda a mantê-los longe dos problemas sociais”. O diretor técnico da Federação afirmou que “as quadras são um problema da SUDESB (Superintendência de Desportos do Estado da Bahia) e da prefeitura”.

Treinando duro
Os meninos do Cristal estão em idades de oito a 17 anos. Existe a subdivisão em categorias por faixa etária: 8 – 10 anos; 11 – 13; 14 – 15; 16 – 17. Dos 55 garotos, 30 jogam pela manhã, das 8:00 às 11 hrs. E os outros 25 treinam no período vespertino, das 13:30 às 16 hrs. “Isso porque antes de escurecer ainda tem o ‘baba’ de uma galera aí”, diz Sivaldo. Os treinos acontecem de segundas a sextas-feiras, sendo que os meninos estão sempre acompanhados por Sivaldo, que trabalha de fixo há três anos na escolinha.  Os próprios meninos afirmaram que o ‘babinha’ é a única forma de lazer da comunidade.

“Gordo” contou o que é necessário para começar a participar do Cristal. “Você tem que trazer a xérox da identidade, do registro de nascimento, a pasta do aluno ou boletim e mais duas fotos 3X4”, diz. Os documentos devem ser entregues no COMORJA II. Danilo do Espírito Santo, 14, lateral direito, Jaguaripe II, fez questão de lembrar que as coisas ali “são de graça e os meninos podem vir de outros bairros, basta querer jogar bola”. Lucas, filho de Sivaldo, disse que eles não fazem teste de bola para entrar na escolinha. “Não é como no Real Salvador, no Bahia ou no Vitória”, afirma. O Cristal já conseguiu colocar três de seus meninos nos times de base do Real Salvador, são eles: Natan, 13 (no infantil), Leanderson e Welington, 14 (no infanto-juvenil). Além de Elieser, que foi para o Vitória, e está treinando no mirim há um mês.

Quando o Cristal vai fazer amistoso com times de outros bairros, é cobrada uma taxa de R$ 2, por menino. O valor serve para comprar remédios, caixa de isopor, água e laranjas, para o lanche dos meninos. O COMORJA II ajuda como pode, diz Sivaldo, “eles fornecem a bola, os coletes e o padrão (que são as camisas), além do lanche durante a semana para os jogadores”. O trabalho de campo também é braçal, são os próprios atletas que retiram o mato ao lado do campo de várzea, catam as pedras jogadas pelas pessoas, abrem valas para que a água não inunde o campinho. “Prá você ver, se a gente começar a reclamar das coisas que faltam, não vamos jogar é nunca”, conclui Sivaldo.

Serviço
A escolinha e time Cristal, comandada por Sivaldo, fica fim no COMORJA II. Endereço: Estrada Velha do Aeroporto (EVA), Km 7,5, Nova Brasília. Pontos de referência: em frente ao Cemitério Jardim Bosque da Paz, nos fundo da Escola Padre Hugo Meregalli. Ônibus: Nova Brasília (saltar antes do fim de linha) ou Fazenda Grande 4. Telefone: 3212-4206
(novembro de 2004)

Anúncios
Posted in: ESPORTE