Arte na parede

Publicado em 10/10/2007 por

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Jovens tiram do grafite o prazer de viver com a arte
por Daiane Sales

Linhas que atravessam fronteiras. Por meio dos muros que dividem Salvador, a arte de grafitar se revela em elos de significados. Isto porque, mais do que  um desenho, o grafite se impõe como força de união entre Jardim Nova Esperança, Canabrava e outros lugares da Estrada Velha do Aeroporto. Através de formatos e mistura de cores, os grafiteiros apresentam mensagens que simbolizam a paz, o amor e ampliam horizontes de pensamentos e valores presentes em cada cidadão grafiteiro.

No bairro de Jardim Nova Esperança, Anderson José, 21, mais conhecido como Corvo, é grafiteiro há sete anos e fala da oportunidade que se renova com o seu trabalho. “O lance é a porta que você está abrindo a cada dia”, explica. Esta “porta” é por onde grafiteiros espalham criatividade, atitudes e garantem espaços que vão além dos muros. “O grafite surgiu na hora certa, trazendo várias oportunidades, abrindo várias portas”, diz.

Não há aquele indivíduo que passe por Jardim nova Esperança e não pare cinco minutos para observar os desenhos de Corvo, espalhados por paredes de casas e muros do bairro. Seus trabalhos, ricos em cores fortes, como o amarelo e o vermelho, mostram a força de expressão carregada em rostos e letras. Registrados de forma detalhada e com mínimos traços, o grafiteiro se inspira em faces de figuras humanas que parecem falar por meio de gestos gravados em cada esquina.

O rapaz, junto com outros amigos grafiteiros, chegou a participar de dois projetos voltados para ensinar crianças a desenvolver essa arte. Um se chamava “Projeto Abrindo espaço”, que ocorreu em 2002, através do apoio da UNESCO. O outro era “Escola Aberta. Um dia melhor”. Ambos aconteceram na escola Padre José Vasconcelos, o único colégio público do bairro de Jardim Nova Esperança. Mas, como não havia materiais suficientes, os projetos não foram para frente. Apesar disso, Corvo não desistiu. “Eu tenho um plano de fazer uma escola de arte na laje de lá de casa”, comenta.

 

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Ele produz seus trabalhos com a ajuda de algumas pessoas do bairro que contribuem cedendo a frente de suas casas e muros para a prática do grafite. Corvo também procura levar seus desenhos para fora do local onde vive. “A gente tem que fazer nossa parte, eu acho que ajuda bem a comunidade a abrir o olho para a arte, não só o grafite, para a arte em geral. É você, independente de classe social, independente de qualquer coisa, ir fazer. Seja com estrutura, porque você não pode ir fazer uma coisa alienadamente. A gente tem que saber fazer bem organizada [a arte] para gente de fora e chegar lá e levar um conceito, o estilo de Salvador, o estilo da sua periferia, da sua comunidade”.
 
Amigo de Corvo há muitos anos, Paulo César, 24,  que trabalha como auxiliar de produção, conhece e admira bastante o trabalho do grafiteiro. Ele já desenhou junto com Corvo e fala do valor da arte para a questão social. “A importância desse trabalho é tirar os meninos da rua. Se toda comunidade voltar para isso, dá espaço para esse pessoal mostrar o trabalho do grafite e chamar as molecada pra poder fazer esse trabalho junto eu acho que vai diminuir mais esses meninos na rua, a tempo de se drogar, fazer vandalismo. Se a comunidade ajudar, vai ser excelente para o pessoal”, afirma. Outro grafiteiro que se destaca pela simplicidade e amor à arte é José Antônio. Mais conhecido como Nogt, de 22 anos, José desenha em muros desde menino. Morador do bairro de Canabrava, seus desenhos se destacam pela variedade de figuras geométricas e faz uma combinação e cores quentes (amarelo) com frias (violeta e o verde). Através do grafite, Nogt procura mostra o lado belo de Canabrava.

 

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Ele parou de realizar o seu trabalho há um ano e meio por falta de incentivo no local. Hoje ele faz letreiros e afirma que há dificuldade em comprar o material porque as tintas são muito caras. Além disso, o grafite não recebe apoio. “Aqui não tem uma sede que a pessoa se reúna, o grafiteiro se reúna, faça hip hop, um projeto para a gente pegar esses meninos e fazer [o grafite], não tem nada disso. A gente segue com outros bairros, entra no meio de outras pessoas para fazer algo sobre o grafite. É nós mesmos que fazemos”, desabafa.

 

Já Antônio Carlos, 39, mais conhecido como Bacurau, é dono de um bar em Canabrava e conhece os desenhos que foram feitos por Nogt. Ele fala sobre o que a comunidade deve fazer para ajudar o grafite. ”Investir mais em salas de aula, em espaço para que eles possam expor o seu serviço, a sua cultura na forma de grafite” e dá um conselho para Nogt: “Mostrar mais o serviço dele, procurar espaço para mostrar o trabalho dele”, declara.
 
O professor de Artes Fábio Augusto de Castro, 35, ensina no Colégio São Tomás de Aquino, no bairro do Rio Vermelho e fala do papel do grafite como arte: “O grafite expressa sentimento, momento. É uma arte que está fora dos museus, fora das exposições, mas que está à mostra. É o dia-a-dia. Ela invade nossa vivência. o grafite tenta questionar, tocar, fazer com que você imagine, absorva e reflita”, comenta. 

 

Segundo Corvo, apesar do preconceito que existe de as pessoas banalizarem e considerarem o grafite como vandalismo, ele nunca desistiu do seu trabalho e faz do estudo e da arte uma escolha de vida. “Eu não sei o que seria de mim se eu não pintasse, se eu não grafitasse. Se eu não tivesse no grafite, hoje, eu estaria perdido. Eu seria um cara totalmente desentendido porque o grafite puxou vários estudos. A psicologia, a história. O grafite foi a saída de tudo para mim”, diz.

(setembro de 2007)

 

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